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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2007 | 17h53

Estou postando de um cyber café no Centro, embora, para dizer a verdade, não haja nenhum café aqui dentro. Estava terminando um post quando o sistema caiu e, como eu não tinha salvado, vou ter que iniciar tudo de novo. Vamos lá. Ontem à noite, estava no Teatro Oficina (leiam o post anterior…) quando alguém me comentou como eram diferentes as abordagens críticas do Estadão e da Folha. A pessoa até comentou que parece que foram exibidas versões diferentes de Cidade dos Homens para as equipes dos dois jornais. No Caderno 2, Antônio Gonçalves Filho, Luiz Zanin Oricchio e eu gostamos do filme de Paulo Morelli e o AGF escreveu um belo texto sobre a questão da paternidade em Cidade dos Homems, que considerou uma metáfora muito rica da crise de autoridade que assola o País. Na Folha, o autor da crítica disse que a paternidade estraga o filme. Ai, meu Deus! Espero que não tenha sido meu amigo Pedro Butcher, de quem eu discordo, às vezes, sem que isso diminuía o respeito – e acredito que a estima – que experimentamos um pelo outro. A paternidade estraga Cidade dos Homens? Lembram-se de Anna Magnani, quando ela mandava Fellini andar (dormir, sei lá), na cena famosa de Roma? Socorro, Anna, tem mais gente para mandar andar. Concordo totalmente com AGF, mas só tenho a acrescentar que, se o tema da paternidade não é uma exclusividade de Cidade dos Homens e outros filmes brasileiros também incorporaram o assunto, na verdade quero dizer agora que não se trata nem mesmode uma exclusividade do cinema brasileiro, claro. Pesquisem no livro Kiss Kiss Bang Bang, da crítica americana Pauline Kael (foi editado no Brasil com acréscimo de material e o título 1001 Noites no Cinema). No verbete dedicado a Os Boas Vidas, de Fellini, Pauline conta que, quando o filme estreou na Itália, em 1953, os marmanjos que se recusam a amadurecer naquela cidadezinha modorrenta, Rimini, foram considerados representações metafóricas de um país em crise de autoridade. Neste exato momento, estou pensando, o que nunca havia feito antes, que meu amado Rocco, de Viscointi, não deixa de ser outra representação desta crise – o pai ausente, a mãe, que pode ser a própria Itália, os cinco filhos, unidos como os dedos da mão. Vou pensar mais sobre a questão da autoridade em Rocco e Seus Irmãos, prometo, mas quero falar agora de Tehilim, filme do israelense Raphaël Nadjari a que assisti em Cannes, onde integrava a competição. Ao contrário da maioria dos coleguinhas, fiquei impressionado com o filme e, desde então, volta e meia me pego pensando nele. Em Israel, falei com diversas pessoas sobre Tehilim, mas ninguém havia visto o filme. Ouvi, de qualquer maneira, grandes elogios ao diretor (que acho que é franco-iraelense). Tehilim conta a história de uma família – pai, mãe e dois filhos. O pai e o filho mais velho são estudiosos da Bíblia. Na saída de uma dessas sessões de estudos com o avô, rabino famoso, pai e filho voltam de carro para casa, ocorre um acidente, o filho corre em busca de socorro e, quando volta com a polícia, o pai desapareceu. Começa uma busca desesperada que, não apenas não localiza o pai como quase desintegra a famílisa. Fiquei muito tocado com o filme e com o que a sua ausência do pai pode revelar como ferramenta para se entender a situação do Oriente Médio, na atualidade. O tema da paternidade me toca muito, confesso, um pouco porque sou pai, mas também – vou fazer uma psicanálise rápida – porque perdi meu pai muito cedo, com menos de 10 anos. Como conseqüência, minha representação do pai foi sendo esculpida na literatura e no cinema. Pronto, já fiz minha psicanálise! Chega de sessão por hoje! Mas espero que Tehilim passe no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Espero que vocês estejam indo, também, ver Cidade dos Homens, para que a gente possa comentar mais sobre o assunto.

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