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Cultura » Pastosidade dos sentimentos

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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2011 | 09h20

Tenho sentido falta de postar, até por conta da correria dos últimos dias, desde que voltei de Berlim, via Paris. Recebi os DVDs do novo pacote da Cult, que incluem ‘Dois Destinos’, de Valerio Zurlini, um dos mais belos e emocionantes filmes já feitos. Curioso – lembrei-me agora de ‘Um Doce Olhar’, do turco Semih Kaplanoglu, que ganhou o Urso de Ouro no ano passado. Amei o filme, mas me lembro que alguém, Inácio?, no guia de cotações da ‘Folha’, deu uma cotação bem baixa e ainda esculhambou – ‘Berlim crê em lágrimas’. Lembro-me que, há 40 e tantos anos, eu saí aos prantos do cinema, depois de ver o filme de Zurlini. Ainda não escrevia em jornais e me lembro do choque que tomei quando, no ‘Correio do Povo’ ou na ‘Folha da Tarde’, P.F. Gastal, o lendário Calvero, que amava o filme, como eu, abriu espaço para que Enéas de Souza denunciasse a ‘pastosidade dos sentimentos’. Acho que foi meu aprendizado do ‘outro’, de que a gente consegue conviver e se admirar nas diferenças (Enéas sempre foi um de meus faróis). Não sei se o próprio Enéas ainda considera Zurlini ‘pastoso’. ‘Dois Destinos’, Cronaca Familiare, adquiriu reputação de clássico. Quem sabe, ‘Um Doce Olhar’, com o tempo… Não quero dizer que tenha razão, mas… Chega de reticências. Como toda cópia da Cult, ‘Dois Destinos’ deve ser pirateado (da Cryterion?), com boa qualidade de imagem, e a fotografia em cores é deslumbrante, mas sem os extras a que lançamento tão importante teria direito. O pacote da Cult também traz ‘Tampopo’, de Juzo Itami, que virou cult nos anos 1980, sobre forasteiro que ajuda a dona de um restaurante no Japão a erguer seu estabelecimento. O filme enriquece a longa lista das obras que celebram o casamento entre cinema e culinária – o subtítulo, no Brasil, ficou sendo ‘Os Brutos Também Comem Espaguete’, buscando uma aproximação com o herói solitário, Shane, de ‘Os Brutos Também Amam’, de George Stevens. E ainda há outro lançamento em DVD, agora na Versátil, e espero que com todos os extras a que tem direito. ‘Terra Bruta’, Two Rode Together’, do mestre John Ford, com James Stewart e Richard Widmark. O próprio Ford não tinha muito apreço pelo filme, que fez como um favor ao tycoon da Columbia, Harry Cohn. Ford contou a Peter Bogdanovich que não gostava do roteiro e talvez tenha sido isso que o autorizaou a fazer o filme com tanta liberdade. ‘Terra Bruta’ tem um dos mais longos (o mais?) diálogos já vistos num western. Stewart e Widmark põem os pés dentro d’água para refrescar, após uma cavalgada, e falam, falam. A ousadia é tanto maior porque Ford não mexe a câmera, que fica parada. Ousadia semelhante a gente encontra na abertura de ‘A Rede Social’, de David Fincher, quando Jesse Eisenberg fala feito uma metralhadora com a namorada (e leva o fora). Nunca vi nada parecido na produção de Hollywood, ainda mais recente. É um dos motivos pelos quais torço por David Fincher, mesmo sabendo que suas chances no Oscar são reduzidas face a Tom Hooper, cujo discurso (do rei) é, comparativamente, mais acadêmico. Mas, como a Academia é como Berlim – crê em lágrimas -, Hooper deve levar.