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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2008 | 08h18

Foi há 24 anos, quase 25. Paulo Francis acho que era cronista da ‘Folha’ e escrevia seu Diário da Corte na Ilustrada. Lembro-me perfeitamente – ele deu a uma coluna o título que repeti muitas vezes depois – ‘Se o Oscar fosse honesto…’ Deixem-me fazer uma pausa, aliás, duas. Já estou em casa, convalescendo, vendo filmes alucinadamente – na TV paga e em DVD. Muitas vezes me dá uma vontade louca de postar sobre o que acabo de ver, mas um cansaço antecipado me consome. Desde domingo, por exemplo, quando assisti ao ‘Calígula’ de Albert Camus e Gabriel Villela, traduzdo por meu amigo Dib Carneiro, editor do ‘Caderno 2’ – e autor premiado do ‘Salmo 91’ -, estou querendo escrever sobre a peça e a montagem. Impossível dizer qual me perturbou mais. Mas eu confesso que não sabia como escrever. A resposta me veio ontem pela manhã, quando revi ‘Passagem para a Índia’ na TV paga. Quando começou, não estava muito afim de (re)ver. Cerca de três horas de filme… Mas aí os acordes iniciais de Maurice Jarre – sua partitura venceu o Oscar do ano – me apanharam e eu resolvi ver um pouquinho, mais um pouquinho e foi uma revelação. É o que me leva de volta a Paulo Francis. Não sou muito de ler o que os outros escrevem. Pode ser arrogância, ignorância ou qualquer outro(a) ‘ância’ que vocês queiram aplicar Mas semre sei o que os outros escrevem. Minha colega Maria da Glória, por exemplo, me mantém informado sopbre o que Arnaldo Jabor e Matthew Shirts disseram sobre tal ou qual filme e se o texto é da Folha ou da Veja sempre tem algum colega para me informar sobre o que sabe que vou achar o ‘absurdo’ da vez. Mas eu não resiastia ao Francis escrevendo sobre cinema, talvez porque, amando filmes como amava, ele tinha certo desprezo pelo cinema, nã reconhecendo nele a profundidade que atribuía à literatura e ao teatro. Volto aos seus comentários sobre o Oscar de 1984. Francis detestava ‘Amadeus’ justamente pelo que gosto no filme de Milos Forman – ele dizia, pejorativamente, que era ‘Mozart para roqueiros’, e isso, para mim, é o maior elogio que se pode fazer ao filme. Francis dizia que, se o Oscar tivesse sido honesto, não teria sobrado para ninguém. ‘Passagem para a Índia’ teria sido o grande vitorioso. Demorei todo este tempo, mas ontem finalmente entrei no mistério do filme. Entendam – eu sempre gostei de ‘Passagem para a Índia’, sempre fui seduzido por Peggy Ashcroft, vencedora do Oscar de coadjuvante, por sua extraordinária criação como Mrs. Moore, uma daquelas raras vezes em que o prêmio fez diferença. Sou seduzido pela bondade de Mrs. Moore, pelo seu olhar que traduz, sem que ela precise falar, toda a exasperação do colonizador perante o colonizado. Mas acho que ontem finalmente compreendi o filme, e foi por meio do personagem de James Fox. De quebra, David Lean meu deu a chave para abrir ‘Calígula’. I’m in heaven.