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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2007 | 10h49

De volta a São Paulo. Foi punk. No aeroporto de Tóquio, encarando a perspectiva de 24 horas de viagem, mais espera em Paris, resolvi abrir a passagem e ficar uma noite na capital francesa. Foi com o maior sacrifício que fiz isso. Brinco, claro. Desde que fui pela primeira vez ao Festival de Cannes, há 15 anos, tenho ido muitas vezes a Paris. Uma, duas por ano, houve um ano em que foi cinco vezes! Nunca fico muito – quatro noites, no máximo, mas no total já devo ter ficado uns dois meses por lá. Pertenço a uma geração que ainda via a França como o centro da cultura e da civilização. É curioso, porque foram os próprios franceses, via Cahiers du Cinéma, que ajudaram a celebrar Hollywood, criando a política dos autores para justificar que pequenos diretores assalariados dos grandes estúdios fossem artistas tão importantes quanto os maiores que o mundo celebrava até os anos 50. Mas eu amo Paris. Toda vez que chego lá, cumpro dois rituais. Vou a Notre Dame – é perto, costumo ficar em hotéis ali do lado – e passeio pelas margens do Sena, que não são margens, porque o rio corre num leito emparedado dentro da cidade. Não é a religiosidade que me leva a Notre Dame. O misticismo? Não sei. Mas acontece que estudei arquitetura e a catedral é um marco da arte gótica, celebrado pela literatura (Victor Hugo) e pelo cinema (as numerosas versões de O Corcunda de Notre Dame). Sento lá e fico viajando naquelas abóbadas, naquelas naves, naqueles vitrais. Penso nos artesãos anônimos que criaram tanta beleza. E ontem, Dia de São Expedito (soube hoje, ao ouvir no rádio, no carro que me apanhou no aeroporto), Notre Dame celebrou o dia inteiro, com missas, o aniversário da indicação do papa Bento XVI, que vem ao Brasil no mês que vem. Peguei parte de uma missa que, depois, fui conferir e descobrir que o prêtre (padre) era aprendiz, rezando sua primeira missa. Imagino a emoção do cara, que tinha um primeiro nome islâmico. Gosto de passear no Sena e, saindo da Praça Saint Michel rumo ao Louvre, no cais (quai) da Rive Gauche, a uns 50 metros, descobri há muitos anos uma placa que diz que, naquele lugar, aos 28 anos, tombou, em 1944, Charles não-sei-das-quantas, pour la France (pela França), combatendo o nazismo. Ontem me chamou a atenção que tem agora uma placa mais nova dizendo que ali também morreu, em outro dia de 1944, aos 19 anos, pour la France, René Doval. Desse, não sei por que, guardei o nome. Que coisa! Ter 19 anos e morrer pela França, combatendo o nazismo. Me vieram tantas imagens de filmes. Fiquei ali parado, emocionado. Mais de 60 anos depois, rendi meu tributo a esse herói que não é anônimo porque o nome dele, afinal, está ali. Mas quem era esse René Doval? Pensei no seu oposto – Lacombe Lucien, o jovem camponês de Louis Malle, que se une aos ocupantes nazistas como poderia ter se unido à resistência. Não adianta. O cinema termina sempre midiatizando minha percepção do mundo.