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Luiz Carlos Merten

06 Julho 2007 | 16h30

Quem vê Paris, te Amo e acha que a idéia é 100% original com certeza nunca ouviu falar de outro filme, dos anos 60. Cineasta francês de origem iraniana, Barbet Schroeder produziu, acho que em 1964, com os Filmes do Losângulo (Films du Losange), de Eric Rohmer, Paris Vista por… O filme era um experimento não necessariamente comercial, para circulação no reduzido mercado de arte/ensaio. Com o fenômeno nouvelle vague ainda recente, parecia uma idéia interessante (e foi…) reunir um punhado de intelectuais – cinco ou seis cineastas, um crítico – em torno da idéia de visitar diferentes pontos de Paris. Inicialmente, a idéia de Paris, te Amo era visitar os 20 distritos de Paris. Ficaram 18. No caso de Paris Visto por…, a idéia já nasceu mais modesta, apenas seis ou sete. Me lembro bem de alguns – o do crítico Jean Douchet sobre Sat. Germain, no qual uma garota recebe o fora do namorado e, ao ficar com outro, descobre que era deste o quarto para o qual o ficante anterior a levava. Meio parecido, o episódio de Godard, Montparnasse Levallois, mostrava esta outra garota que acha que trocou as cartas para os dois amantes, que vivem em bairros distantes, e ao tentar se desculpar recebe o fora de ambos, poprque não havia trocado as cartas, coisa nenhuma. O episódio Place de l’Étoile, do Rohmer, era meio estranho, sobre um cara que acha que matou outro e evita a Praça da Estrela, como se fosse assombrada, até descobrir que o falso morto está vivinho da silva. O mais cruel era o de Chabrol, La Muette, que se passava não me lembro mais em que bairro ou distrito, sobre garoto cansado das brigas dos pais (o próprio Chabrol e Stéphane Audran, com quem o diretor era casado) e tapa os ouvidos, o que o impede de ouvir o pedido de socorro da mãe, quando ela tem uma queda. Finalmente, o melhor de todos era o de Jean Rouch, Gare du Nord, sobre uma mulher que recrimina o marido por sua falta de ambição e romantismo. Ela sai de casa furiosa e encontra um estranho impulsivo que lhe faz uma declaração de amor. O que ele diz é o que ela queria ouvir do marido. A mulher não dá atenção e o cara se joga da ponte e se mata. Pensando bem, o episódio de Jean Rouchm, filmado num só plano-seqüência, consegue ser mais cruel que o de Chabrol.