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Cultura » Pare a Romênia que eu quero descer

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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2007 | 19h01

CANNES – O segundo filme da competição veio da Romênia, país que tem feito bela figura aqui no festival. Nos últimos anos, A Morte do Senhor Lazarescu e A Leste de Bucareste mostraram o vigor do cinema romeno. Pode até ser que surjam muitos filmes melhores que Quatre Mois, Trois Semaines et Deux Jours, mas é difícil imaginar algum mais terrível. Christian Mungiu fez um filme que avança de forma muito estranha. Os quatro meses, três semanas e dois dias referem-se ao período de gravidez de uma mulher que vai fazer um aborto. Uma amiga a acompanha. A revelação de que se trata de um aborto demora um pouco para aparecer, mas tudo é muito meticuloso. Todos os gestos e movimentos, na rua, no interior da casa, na faculdade, parecem em tempo real. O aborteiro – é um homem – não cobra em dinheiro. Cobra em sexo. A via-crúcis das duas não tem fim. A amiga, em meio à crise, ainda tem de visitar a mãe do namorado, que está de aniversário. Fica no meio de uma discussão meio absurda sobre liberação dos costumes e desrespeito dos jovens em relação aos mais velhos. O namorado, que a ama, não entende a mulher e termina por perdê-la numa cedna que é a versão hard de My Blueberry Nights, de Wong Kar-wai. A Romênia, o cinema tem mostrado, é um país horrível de se viver. Não devia ser muito melhor na época da ditadura de Ceasescu, mas a decadência é total. Tudo cai aos pedaços e existem corrupção, mercado negro, vigilância policial. O aborto pode dar dez anos de cadeia. É praticado de forma clandestina, em condições que, até no Brasil, pareceriam primitivas. Imagino o que o papa diria se assistisse a este filme. O Vaticano poderia querer usá-lo como parte de sua campanha contra o aborto. Qualquer organização a favor também poderia reivindicá-lo como libelo pela legalização do direito à interrupção da gravidez. Christian Mungiu jogou uma bomba na Croisette. Fiquei louco de vontade de ir ao debate amanhã, mas o horário é o mesmo da exibição de A Via Láctea, de Lina Chamie, na abertura da Semana da Crítica. Ó céus! Festival tem dessas coisas. Volta e meia a gente tem de fazer escolhas. Guarde o título e me cobre, depois, se achar que é refresco. Não é mesmo!

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