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Parceiros da Noite

Luiz Carlos Merten

07 Junho 2007 | 18h22

Estava redigindo há pouco os filmes na TV de domingo, para o Telejornal. Cheguei a Jade, thriller de William Friedkin, programado às 22 horas pelo AXN. O filme é de 1995. Passou em Veneza, numa época em que eu cobria o festival para o Estado. Lembro que Jade passou numa versão que não estava pronta, como work in progress. Foi a primeira vez que vi isso num evento daquela envergadura. Depois, me acostumei. 2046 passou em Cannes como work in progress e Wong Kar-wai admitiu que ainda poderá mexer em My Blueberry Nights, que abriu o Festival de Cannes deste ano. Na época, como todo mundo, achei que Friedkin estava tentando tirar sua casquinha do sucesso de Instinto Selvagem. Como o thriller de Paul Verhoeven que transformou Sharon Stone em estrela, Jade também tem roteiro de Joe Esterhas e opera no mesmo universo erótico/criminal, da perversão com assassinato. David Caruso faz o tira que investiga crime brutal e descobre que sua ex (Linda Fiorentino) pode estar implicada. Nunca mais revi Jade, nem zapeando na TV paga, mas o que me leva a este post não é tanto o filme, mas seu diretor. Friedkin ganhou o Oscar no começo dos anos 70 com Operação França e, na seqüência daquele thriller, iniciou a série O Exorcista. Foi um diretor cujo prestígio, nos anos 80 e 90, caiu a zero. Friedkin iniciou nova carreira, como diretor de ópera. Ocasionalmente, volta ao cinema. A ópera mudou seu conceito de audiovisual? Pode ser, mas a verdade é que a crítica mudou em relação a Friedkin. No Brasil, ele ainda tende a ser subestimado, mas Cahiers du Cinéma tratou muito bem Regras do Jogo e A Caçada, ambos com Tommy Lee Jones. No ano passado, Friedkin fez sensação numa mostra paralela de Cannes – a Quinzena – com Bug, um thriller sobre sujeito que pensa que foi submetido a uma experiência do Exército e está sendo devorado por vermes. Vi o filme em Paris e achei uma porrada. Cahiers gostou, mas desta vez foi Positif que botou Friedkin nas nuvens. Este ano, Friedkin teve nova ovação em Cannes. Ele foi mostrar a versão restaurada de Parceiros da Noite, policial de 1980 que, na época, foi chamado de homófobo e foi um dos primeiros filmes a mobilizar, nos EUA, a comunidade gay para protestar pela forma como era retratada por Hollywood. O filme chama-se Cruising, no original. Al Pacino faz o tira que se infiltra no submundo sado-masô (e gay) de Nova York, em busca de um serial killer. O mundo gay é representado como doente e perverso. Pacino termina liberando o lado sombrio de sua mente e fica pior que o assassino obsessivo e ritualístico que caça. Pois bem – a nova versão de Parceiros da Noite não acrescenta nem suprime material ao que foi visto há mais de 30 anos. O que Friedkin fez foi uma remontagem. Alterou a ordem das cenas e manteve o filme na mesma duração (106 min), mas algo houve porque Parceiros da Noite agora está sendo saudado comno obra-prima e filme adiante do seu tempo. Havia visto Bug no ano passado (e gostado), mas este ano confesso que não revi Cruising. No mesmo dia e hora, era minha última chance de ver Go-Go Tales, de Abel Ferrara, e eu não quis desperdiçá-la. Gostei demais (do filme do Ferrara). Mas estou curioso para ver este novo Cruising. Friedkin é atraído por um universo sórdido e violento. Seus melhores filmes tratam disso. Não sei se Cruising volta para os cinemas ou se sai só em DVD. Seria uma boa pedida para o Festival do Rio ou para a Mostra de São Paulo. O próprio Friedkin poderia vir, para discutir cinema e ópera. Por que não?

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