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Luiz Carlos Merten

28 Abril 2012 | 16h08

RECIFE – Valéria me acusa de deselegância, ao preferir Cannes a ‘qualquer’ festivalzinho brasileiro. Uma, que não acho o Recife ‘qualquer’ (a deselegância é dela) e dois, que Cannes não é só um festival, é ‘o’ festival e eu farei a alegria de um monte de gente ao deixar de fazer a cobertura para o ‘Estado’. Tem também a questão da seleção. A do Recife neste ano está cheia de novidades, tendências, nem sempre é assim e Cannes é a vitrine, sempre, do que de mais avançado se faz em cinema no mundo, tanto autoral como industrial. Não é por acaso que a Croisette abriga eventos de lançamentos de blockbusters. Por que estou escrevendo isso? Em geral, não respondo às críticas que me fazem, e não por não levá-las em consideração. É que detesto ficar me justificando, agora que ninguém pense que revelações como essa, de não ter vindo ao Recife nas duas edições anteriores do Festival do Audiovisual, são, como direi?, atos falhos. Posso errar em nomes e datas, mas sei muito bem o que digo, por que digo. Enfim, tivemos hoje a coletiva de ‘Paraísos Artificiais’. Na sequência, falei com Marcos Prado e seus atores – Luca Bianchi, Natália Dill e Lívia de Bueno. Confesso que gostei mais do trio, do quarteto, que do filme. Mas ‘Paraísos Artificiais’ poderá desencadear uma discussão interessante sobre a geração ‘corta e cola’, ou a geração ‘T’, esse garotada que fica twittando o tempo todo. Comentei, e isso desencadeou uma discusão interessante na coletiva, que, na minha frente, sentaram-se vários jovens, no Cine Teatro Guararapes.  Sob o efeito das drogas, os jovens, e as jovens, entregam-se na tela a jogos de homoerotismo. Natália e Lívia mandavam ver se tocando e a garotada nem olhava para a tela. Só twittavam, todo mundo com seus celulares ligados e aquelas luzes piscando na cara da gente, disputando a atenção com a tela. Imagino que estivessem comunicando ao mundo que estavam num cinema, vendo um filme de pegação, pegação que parecia não interessá-los em nada. No final, levantaram-se e aplaudiram entusiasticamente. Como coloquei o tema para debate, fui informado de que com essa geração é asim mesmo, que eles conseguem fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo. Ai, a juventude. Muda para permanecer a mesma. Nos anos 1960, quando comecei a escrever e eles nem eram nascidos, a TV estava mudando a gramática cinematográfica. Aquela coisa da assimilação instantânea, de fazer 1001 coisas com a televisão ligada, acabou com as lentas tomadas e as fusões do cinema mudo. Por isso é que defendo que a cena do assassinato na ducha de ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock,  é tão importante ou mais que a da escadaria de Odessa de ‘O Encouraçado Potemkin’, de Sergei M. Eisenstein. Aquilo foi uma revolução, ainda não sei se estamos tendo outra com o celular, o twitter, o facebook – digo, no cinema. Na comunicação, é óbvio que sim, mas isso ainda é um desdobrtamento (ou não?) da revolução do digital no início da década passada. Sei perfeitamente que é possível fazer duas coisas ao mesmo tempo – mijar e assobiar, por exemplo, transar e ouviur música, comer e ver TV, mas não estou muito seguro de que aquela gurizada de ontem, ao aplaudir daquele jeito, tivese ‘assimilado’ o filme. E o problema, para mim, é o seguinte. As dezenas de celulares ligados emitem uma luz que chama a atenção e incomoda, mas isso é só parte de um movimento que também libera as pessoas para comerem pipoca e tomarem refrigerante durante as sessões. Posso estar ficando velho, mas não gagá, e acho essa modernidade, na verdade, uma grande incivilidade, barbárie pura. E a estética de ‘Paraísos Artificiais’, me desculpe o Marcos (que não viu o filme de Kathryn Bigelow que vou citar), tem pelo menos 17 anos, quando surgiu ‘Estranhos Prazeres’ (e o ‘Paraísos’ é proibido até 16). Ou seja, o novo para os jovens, não é necessariamente novo para mim, é ‘velho’, he-he. Mas ‘Paraísos’ é interessante, bem feito. Com rave, música eletrônica, esfregação de homem e homem, de mulher e mulher, de homem e mulher (também), o filme esculpe o tempo e busca outra forma de contar uma história no fundo tradicional (comportada?) de perda e reparação, de desencontro e reencontro. Na saída do debate, parte da equipe me perguntou se eu havia gostado do filme. O pior é que não sei. Achei bem feito, dentro da proposta, mas bom… Estou processando. Os atores, sim, o elenco todo, elas e eles, é ótimo. Permito-me uma última pequena digressão. Os jovens transgresores de ‘Paraísos Artificiais’ encontram um velho transgressor, daqueles que perdeu o último ônibus de Woodstock. Todo mundo achou the best, porque é o personagem que introduz a palavra e reflete sobre as drogas. Eu achei estereotipado. Exatamente há uma semana, havia entrevistado no CCBB, em São Paulo, Edgard Navarro, autor de ‘O Homem Que não Dormia’, que estreou ontem (e que amo). Edgar, pela postura, poderia ser muito bem o modelo do velho hippie, mas, ao contrário desse, não é um estereótipo. Seu discurso elaborado mexeu comigo. No ‘Paraísos’, quando o personagem entrava em cena, eu pensava, e me preocupo se não era um tanto cinicamente, ‘ai, lá vem mensagem do autor’.