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Parágrafos, aleluia!

Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2008 | 19h39

Longe do Celdani, como ele diz, querer monopolizar os comentários, mas a verdade é que eu adoro falar de western, uma coisa liga à outra e… Fica como se eu estivesse falando somente para ele, mas espero que não. O que não posso perder é a oportunidade Celdani estranha o comentário sobre Marlon Brando, quando digo que ele desperdiçava seu talento nos anos 60. É verdade. Depois de virar mito nos anos 50, Brando virou o bad boy, ou garoto-problema, de Hollywood nos 60. Ele iniciou a década filmando com Kubrick, mas se desentendeu com o grande diretor por causa do conceit do que virou ‘A Face Oculta’. O cacique do astro era tão grande que ele conseguiu despedir o grande diretor, assumindo seu posto no filme. Conta a lenda que Brando ficava horas – dias… – sentado diante do mar (num western!), à espera de que as ondas atingissem a intensidade ‘x’ que ele queria para a cena, ou as cenas. Por conta de seus caprichos, o orçamento triplicou, mas o filme, de qualquer maneira, adquiriu certo prestígio de critica e foi um bom investimento para o estúdio. Brando fez o que não deixa de ser um western intimista e uma das cenas inesqueciveis e um diálogo – sussurrado – entre Katy Jurado e Pina Pellicer, que faz sua filha. Katy é mulher de Karl Malden, o antigo parceiro que abandonou Brando e ele foi para a cadeia, enquanto o outro se estabelecia como xerife nesta pequena cidade à beira do mar. As duas falam em espanhol, Katy quer saber por que Pina, que se chama Luísa, dormiu com o inimigo do pai. ‘Por que lo hiciste, Luísa?’ – me parece ouvir a pergunta. Pina era uma atriz maravilhosa, de uma sensibilidade à flor da pele. Não sei em que circunstâncias, mas ela terminou por se matar.
Vou fazer o que não costumo – abrir um parágrafo. Apesar desses momentos privilegiados, pode-se lamentar, mesmo assim, pensando no que Kubrick teria feito – ele, cujo sonho era realizar a obra-prima definitiva de cada gênero do cinema. O começo dos anos 60 não foram bons para o grande Stanley. Ele próprio substituiu Anthony Mann, demitido pelo ator e produtor Kirk Douglas do set de ‘Spartacus’ e, embora para mim – e as torcidas do Flamengo e do Coríntians, juntas – seja um Kubrick excepcional, o autor, que não teve controle sobre a obra, nunca teve muito apreço pelo seu épico do Império Romano e até fez a autocrítica em ‘Lolita’, na cena em que Quilt (Pete Sellers) simula estar algemado e diz – ‘I’m Spartacus, set me free’. Na seqüência de ‘A Face Oculta’, Brando embarcou em outra aventura milionária – o remake de ‘Mutiny in the Bounty’, que já havia sido sido filmado nos anos 30 (com Clark Gable e Charles Laughton) e ganharia nova versão, ‘Rebelião em Alto-Mar’, de Roger Donaldson, com Mel Gibson, nos 80. De novo os caprichos de Brando infernizaram a produção, mas ele não conseguiu demitir o diretor Lewis Milestone, que carregou o estigma de haver feito o fracasso monumetal que foi ‘O Grande Motim’. Brando seguiu pelos 60 fazendo filmes como ‘Quando Irmãos Se Defrontam’, ‘Morituri’, ‘Sangue em Sonora’ etc, cada um pior que o outro. Até quando eram bons – ‘Caçada Humana’, de Arthur Penn, remontado pelo produtor Sam Spiegel, e ‘Os Pecados de Todos Nós’, que John Huston adaptou de Carson McCullers -, os filmes eram rejeitados pelo público. Brando virou veneno de bilheteria e foi forçado a fazer teste para o papel de Vito Corleone, que salvou sua carreira, e o êxito de ‘O Poderoso Chefão’, de Coppola, foi seguido pelo ‘escândalo’ de ‘Último Tango em Paris’, de Bertolucci, transformando Brando, de novo, ‘no’ homem. Tudo isso é história que eu gosto de lembrar/recontar (e que , espero, proporcione o mesmo prazer para vocês).
Emendo com outro parágrafo e mais uma deixa do Celdani – ele encontrou à venda, no site, DVD World, outro western de Delmer Daves, ‘A Árvore dos Enforcados’. Contei como, na carreira do diretor, os anos 50 foram dominados pelos sangue-bangues, começando com ‘Flechas de Fogo’ (Broken Arrow), em 1950, e concluindo com ‘The Hanging Tree’, em 1959. Foi o último western de Daves – ‘Os Nove Irmãos’ (Spencers Mountain) não é exatamente um filme do gênero -, com Gary Cooper vivendo um dos heróis mais trágicos de sua carreira. Ele faz um médico que chega a um assentamento de mineiros, durante a febre do ouro, salva um jovem ladrão, trata de uma garota que ficou cega num acidente – a atriz alemã Maria Schell – e termina provocando o ódio principalmente de um pregador religioso, um fanático interpretado por George C. Scott. Como bom mocinho de western, Cooper faz um homem com um passado e, por isso mesmo, candidato à árvore dos enforcados, que faz com que a comunidade se sinta respeitável, mas é muito mais um instrumento de barbárie do que de civilização. Um dos temas do filme, ou ‘o’ tema, é justamente a educação, a construção da cidadania. Não saberia dizer agora, mas o que mais me impressionou em ‘A Árvore dos Enforcados’ foi a canção-tema, uma tradção do gênero. Lembro que a trilha é de Max Steiner, mas não me lembro quem cantava ‘The Hanging Tree’. Espero que o Celdani tenha comprado o DVD e nos informe. O filme tem belíssimas – e elaboradas – imagens. Lembro de um plano em que os inimigos de Gary Cooper formam uma espécie de alinhamento, com George C. Scott no primeiro plano. É curioso como a memória visual consegue reter esses detalhes. Bastou falar sobre ‘A Árvore dos Enforcados’ que me vieram o plano e a canção.

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