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Cultura » Paradoxos de um perfume

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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2007 | 16h24

Fui ontem ao Arteplex para assistir à pré-estréia de Perfume. Cheguei lá e havia uma fila enorme. Não sabia que era a pré-estréia, para convidados, de Pro Dia Nascer Feliz, documentário do João Jardim que já anda papando prêmios em festivais há um bom tempo, mas estréia, mesmo, somente na sexta-feira da próxima semana, dia 2. No intervalo, João, que não quer ficar etiquetado como documentarista e planeja sua estréia na ficção, fez o especial sobre Elis Regina, na Globo, que se pode definir como um ‘docudrama’. Quando falei aqui fugazmente sobre o especial, não sabia que a co-direção era do João. Reclamei que me parecia muito superficial e pouco focado, como se tivesse havido interferência da família ou da emissora para tratar dos aspectos mais controvertidos da vida (e morte) da Elis. Depois soube que houve réplica e tréplica, no Almanaque da Maria do Rosário Caetano e na Folha, sobre a remontagem do material, porque João não se sentia responsável pelo que foi ao ar. A próprias Elis acho que teria detestado, porque na sua última fala no programa ela diz justamente que queria poder olhar no olho das pessoas, sendo autêntica com sua arte e honesta consigo mesmo. A Elis do programa era muito anódina, não era a da realidade. Tudo isso me desvia do que quero falar e é sobre Perfume. Existem santos chamados das coisas impossíveis. Tom Tykwer leva jeito de virar o diretor dos filmes impossíveis. Ele ousou filmar o roteiro de Kieslowski, tentando fazer de Heaven (Paraíso) um filme como os que o grande diretor polonês realizava. Ninguém faz um filme de Kieslowski como ele próprio fazia (é óbvio), mas a causa impossível me resultou muito interessante e eu gostei bastante da Cate Blanchett (mais do que em O Aviador, pelo qual ela ganhou o Oscar de atriz coadjuvante). Com todos os defeitos que possa ter, prefiro Heaven a Inferno, outro roteiro do Kieslowski, filmado por Danis Tanovic e no qual não encontrei quase nada da transcendência do autor da trilogia das cores. Tanovic fez de Inferno o seu Terra de Ninguém 2. Retrospectivamente, ele me fez até desgostar de seu filme vencedor do Oscar. Xô, Satanás! Tykwer assumiu agora outra causa perdida – a adaptação do romance de Patrick Suskind, que Kubrick quis filmar, mas desistiu, achando que o cinema era impotente para captar e transmitir o sentido do olfato, a menos que ele fizesse como John Waters, que instalou um sistema de distribuição de perfume em salas selecionadas de determinado filme que realizou. Não posso dizer que gostei de Perfume, mas gostei de ver o filme, que me embananou todo e me deixou cheio de dúvidas e inquietações (sobre o cinema e o próprio personagem). É um filme estranhíssomo, sobre um sujeito que nasce no lixo, desenvolve um nariz especial para captar todos os odores e, na tentativa de captar (e preservar) o cheiro das pessoas, termina se transformando num assassino em série. Há algo de Norman Bates, na figura física do ator, no voyeurismo do personagem e também no seu vínculo edipiano com a mãe, cuja morte ele provoca simplesmente ao chorar, quando é rejeitado por ela. No livro, o personagem é um monstro. Na concepção de Tom Tykwer, vira um eremita obcecado pela própria solidão e que só muito tardiamente adquire consciência da própria monstruosidade, embora isso venha num momento singular (aparentemente ‘chupado’ de Antonioni, a bacanal no deserto de Zabriskie Point). É quando o perfume que criou matando belas moças virgens provoca o êxtase da multidão e uma necessidade por contato físico que ele próprio sempre evitou. Como em Paraíso, o tema de Tykwer em Perfume é a ascese, a busca do homem pela elevação última que, no caso do (anti)herói deste filme, significa voltar ao lixo e completar um ciclo, assumindo a anulação que tanto teme no santuário de pedra em que se isola na montanha. Perfume é excessivamente ambicioso em termos de forma, de temas. Vou esperar que vocês vejam e voltem ao assunto, postando seus comentários. Mas vou logo dizendo – se é possível gostar de um filme por seus defeitos, eu gosto deste. Insisto no paradoxo. Não digo que Perfume seja um bom filme, nem que gosto muito do novo Tom Tykwer, mas gostei de ver esta obra cujo estranhamento me perturbou e isto é muito mais do que posso dizer de outros filmes, até mais aclamados, a que tenho assistido ultimamente.