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Cultura » Para Woody Allen, no finalzinho do seu 75.o aniversário

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Luiz Carlos Merten

01 Dezembro 2010 | 20h43

O primeiro Woody Allen a gente não esquece. O meu primeiro, ‘Bananas’, eu vi no Uruguai e o segundo, ‘Tudo o Que Você Sempre Quis Saber sobre Sexo’, em Buenos Aires. Era no começo dos anos 1970, morava em Porto Alegre, já escrevia sobre cinema – tinha uma página diária na ‘Folha da Manhã’ – e volta e meia eu passava meus finais de semana no Prata, vendo filmes aqui proibidos pela censura do regime militar ou então aqueles que a cinefilia de uruguaios e argentinos colocava antes nas telas. Era bem uma questão de cinefilia. Embora as ditaduras também se sucedessem nos dois países, o circuito deles estava aberto para obras que os militares brasileiros exorcizavam, colocando no índex. No Brasil, vi, bem depois da estreia, ‘Cassino Royale’, paródia irregular de James Bond, e ‘Sonhos de Um Sedutor’, que Herbert Ross adaptou da peça do próprio Woody Allen e ele interpretava – ‘Play it Again, Sam’. Acho que comecei a gostar de Woody Allen através de Luís Fernando Verissimo, que o venerava e não perdia a chance de compartilhar esse amor com seus leitores. (Aliás, tenho de contar – por volta de 1970, Luís Fernando era um dos críticos de cinema, mesmo que não o fosse, que eu achava que valia a pena ler. Seus textos sobre Peckinpah, ‘Meu Ódio Será Sua Herança’, e Visconti, ‘Os Deuses Malditos’, são o que há de concisão e acuidade.) Gostei de ‘Annie Hall’, que aqui ganhou aquele título horroroso, ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’, mas só amei de verdade Woody Allen quando ele fez ‘Manhattan’. Foi um deslumbramento. A fase com Mia Farrow teve píncaros de excelência – ‘Zelig’, ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, ‘Hannah e Suas Irmãs’, ‘Crimes e Pecados’. São, até hoje, meus filmes preferidos, entre todos os que ele fez. Os dois primeiros são obras-primas de invenção, inclusive técnica. Os outros dois são de uma densidade que comprova como o cinema pode ser profundo na análise dos sentimentos, sem deixar de ser divertido. Confesso que o episódio Soon Yi me abalou, não que eu seja santo – Madre Teresa só havia uma e já foi -, mas aquilo me bagunçou. E daí que não era filha de verdade? A crônica policial está cheia de padrastos que dormem com as filhas das mulheres e eu duvido que uma meia dúzia de feministas que conheço tivessem com eles a mesma tolerância que tiveram com Woody Allen, só porque era ele. Passou, eu sei, mas sendo honesto comigo mesmo acho que aquilo tudo contaminou minha apreciação de Woody Allen. Não digo isso com orgulho nem porque acho que seja legal, mas porque é a verdade. Nunca mais vi um filme de Woody Allen que tenha me arrebatado. De alguma forma, acho que essa união tardia o serenou na vida, mas não foi muito produtiva para a sua arte. Quer dizer, produtiva foi, em termos. Woody Allen faz um filme por ano, todos os anos. É um fenômeno. O problema é o tipo de filmes. Antes, ele reverenciava Bergman, Fellini, Tolstoi, Dostoievski. Até Kafka! Hoje, parece menos exigente consigo mesmo, até quando cita Shakespeare (em ‘Você Vai Conhecer’). Alguns são mais divertidos que outros, um me irrita – ‘Vicky Cristina Barcelona’, sorry, mas aqueles estereótipos de latinidade de Penelópe Cruz e Javier Bardem são demais para o meu gosto. Que continue desfrutando quem gosta (e eu sei que a maioria ama). Não havia gostado de ‘Você Vai Conhecer’ quando vi o filme em Cannes, em maio. Achei, no limite, desnecessário. Tanto podia ter visto como faltado. Ao rever agora, vi outro filme, muito mais cruel, mais impiedoso com seus personagens. Mudou o filme ou mudei eu? Adorei a cena em que Naomi Watts se abre para Antonio Banderas e ele desconversa, mas detestei a outra em que Naomi surta porque a mãe diz que a vidente não a liberou para emprestar o dinheiro à filha. Não sei se a notícia da morte, por suicídio ainda por cima, de Monicelli – que recebi quando estava entrando na sala – contribuiu para a minha fossa, mas o filme, com certeza, a aprofundou. Não achei graça nenhuma. Estou hoje num impasse com Woody Allen. Respeito-o, admiro-o pelo que fez, não pelo que está fazendo. Mas tenho de reconhecer. A assinatura de Woody Allen é um fenõmeno acho que nunca visto no cinema. O filme ainda nem começou e o tipo de letra nos créditos, somado à trilha, já anuncia quem está chegando. É mágico. Para encerrar, já disse quais os meus filmes favoritos dele. Citei quatro, o quinto seria também com Mia Farrow, ‘Simplesmente Alice’, cujo tom de fábulas me encanta. Vou fazer mais uma revelação – nunca vi ‘Memórias’, acreditam? E vocês, quais os Woody Allens que preferem?