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Para sempre Hiroshima!

Luiz Carlos Merten

03 Abril 2017 | 09h52

Revi ontem Hiroshima, Meu Amor. Belas Artes, 13h30. Scénario et dialogues, Marguerite Duras. Réalisation, Alain Resnais. Tem gente que, por causa disso, não considerava Resnais um ‘autor’. Seria apenas um ilustrador de seus grandes roteiristas. Por esse raciocínio, Duras seria a autora de Hiroshima, como Herman Mankiewicz seria o de Cidadão Kane, de Orson Welles. Varia o escritor, mas de Hiroshima a A Guerra Acabou, Providence e Meu Tio da América, que são os ‘meus’ Resnais, não existe cineasta de estilo mais inconfundível. Sobre ele, dizia Bachelard, “Depois do texto, começa a obra de leitura.” E Jean Tulard – A elucidação do texto vira sua transformação em imagens. Hiroshima é de 1959. Deve ter estreado no Brasil em 1960. Vi-o quatro ou cinco anos depois, numa sessão do Clube de Cinema de Porto Alegre, apresentada por Jefferson Barros. Devia estar com 20 anos (sou da classe de 45). Passaram-se 50 anos, e eu ainda revejo Hiroshima com o espanto da primeira vez. Conheço exatamente o texto, os movimentos de câmera. Emmanuèlle Riva toma café no terraço do hotel, de quimono. Olha os ciclistas que passam lá embaixo. Volta para o quarto, a câmera a segue num movimento lateral. Ela pára, muda o ângulo e agora Emmanuèlle é vista de dentro do quarto. O rosto encostado no batente da porta. Olha a cama. Corte. Eiji Okada de bruços, dormindo. Ele mexe os dedos. Meu coração dispara. Vem o corte. O soldado no chão, sangrando, atingido por aquele tiro. Mas se conheço tudo, cada imagem, cada fala, que mistério faz com que a emoção se renove, a cada vez? François Truffaut dizia que a idade cai bem nas obras que o tempo respeita. Revi Os Incompreendidos em Paris, em fevereiro, mas não é Hiroshima. Um bom pequeno filme realista, sem muito mistério. O mistério é Jean-Pierre Léaud. Via o garoto na tela e o enxergava, quase 60 anos depois, como o Rei Sol de Albert Serra. Nada me perturba mais, me produz maior exaltação que a mudança na trilha de Hiroshima. Em Rocco e Seus Irmãos, tem um efeito parecido, quando Alain Delon e Annie Girardot tomam o ônibus e ficam lá atrás, se pegando… Em Resnais, a ligeireza de Georges Delerue substitui a gravidade de Giovanni Fusco e a garota corre ao encontro do amante alemão. On faisait l’amour partout… Anos depois, Louis Malle (Lacombe Lucien) e Marcel Ophuls (Le Chagrin et la Pitié) nos confrontaram com o horror do colaboracionismo, mas ali é a pureza, a entrega do primeiro amor. Morremos um pouco com a coureuse de Nevers quando o corpo do amante esfria sob o dela e sua cabeleira é tosquiada, como símbolo da vergonha. Que ceux qui ne sont pas été heureux à 20 ans, osent parler de l’amour… E o amante japonês – Foi lá, em Nevers, que eu sinto que corri o risco de te perder. Todos mortos – Resnais, Emmasnuèlle, Okada, Duras, Delerue, Fusco etc. Mas o filme deles segue vivo. Esplendoroso.