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Para Roma (ou Lasse?), com amor

Luiz Carlos Merten

14 Junho 2012 | 12h05

Tive uma noite estressante ontem, que terminou no Pronto Socorro do Hospital 9 de Julho, aonde fui parar por causa de uma crise de sinusite. Tossia sem parar, não consigo nem imaginar como o corpo humano consegue produzir tanta secreção. Parecia que ia  me afogar, com as torrentes que me inundavam a garganta. Pronto – chega de nojeira, Merten. Voltei ao atibiótico, à inalação. Espero melhorar. Meu estado agravou-se à tarde na cabine da Paris Filmes, não sei se pelo ar condicionado. Havia pedido para ver o ‘Amor Impossível’, de Lasse Hallstrom, que estreia amanhã, mas já havia outra cabine marcada e ‘tive’ de passar antes pelo Woody Allen, ‘Para Roma, com Amor’. Fraquinho, principalmente depois de ‘Meia-Noite em Paris’, mas o curioso é que o filme permaneceu comigo e hoje me peguei rindo de duas ou três piadas que, na hora, me deixaram meio de mármore. E o filme tem um lado ‘Reality’ muito interessante. O culto das celebridades na vida italiana, Roberto Benigni, ecos de Matteo Garrone. ‘Amor Impossível’… Pode ser que existam muitos filmes sobre pescaria, mas estou me lembrando de poucos. ‘O Esporte Favorito do Homem’, de Howard Hawks, que sempre achei que fosse sacanagem do velho. Afinal, Rock Hudson, caniço, mas apesar disso o esporte preferido do macho, segundo Hawks, é a mulher, mesmo que, na maioria de seus filmes, ela aumente os perigos do homem. Outro bom filme – ‘Nada É para Sempre’, de Robert Redford, gente como a gente, o rio passando, o tempo e a pescaria como metáfora de que a família, sim, é para sempre. E ontem – ‘Amor Impossível’. Um xeque quer construir um viveiro de salmão no deserto do Iêmen, o governo britânico resolve apoiar o projeto para distrair a atenção do público. Não creio que Lasse Hallstrom seja um grande cineasta, mas o admiro e respeito. Cooptado por Hollywood, depois que ‘Minha Vida de Cachorro’ concorreu ao Oscar, ele nunca abriu mão de fazer os filmes que queria. Em geral, são histórias humanas, filmes pequenos (no formato), tradicionais, a que astros e estrelas acrescentam um brilho, mas o diretor nunca os glamouriza, pelo contrário. Hallstrom é o diretor médio que sobrou no cinemna hollywoodiano atual e, se ele não é tão bom como os da idade de ouro dos estúdios, não é culpa sua – foi o cinema, como um todo, que encolheu. Acho-o bem sincero, e honesto, e volta e meia ele aborda temas difíceis, tornando-os palatáveis para o espectador médio (e o puritanismo de Hollywood). Drogas, incesto, por aí. ‘Amor Impossível’ tem essa cena em que o xeque convida Ewan McGregor, o especialista inglês que vai tocar o projeto, para pescar. Conversam e, de repente, o assunto não é mais pescaria, é a fé, Alá o Misericordioso, a necessidade de mudanças no mundo árabe (e elas estão ocorrendo). O projeto messiânico do xeque vai virar pequeno, com a participação da comunidade – o democratismo é possível, no mundo árabe como no sistema inglês, onde a assessora de imprensa Kristin Scott Thomas pensa como marqueteira política. Tudo muito simples, mas na verdade, não tão simples assim. Achei bem legal e nem percebi que o ar da cabine estava me envenenando. Enfim, cá estou. Sobrevivendo, sobrevivendo. E o amor, ao contrário do título, não é impossível. O instinto se sobrepõe à cultura, os peixes seguem sobem o rio. Tem gente que vai achar banal. Problema deles!