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Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2011 | 12h13

GRAMADO – Para que serve um festival de cinema? Para ver e debater filmes, fazer entrevistas, comer bem, reencontrar amigos. Encontrei muita gente do Sul e de outras partes do Brasil, que adorei rever. Algumas histórias de estarrecer. Roberto Farias está tentando captar para um novo projeto. Ele o submeteu ao Fundo Setorial e veio o parecer (anônimo), esculhambando com o diretor. O parecerista diz que Roberto está há anos sem filmar, levanta dúvidas sobre a sua capacidade de dirigir. Tudo bem, até dou o desconto de que Roberto, aos 79 anos, não seja o jovem que deu ao cinema brasileiro alguns de seus mais belos filmes, nos anos 1960 – a trilogia ‘Cidade Ameaçada’, ‘Assalto ao Trem Pagador’ e meu favorito, ‘Selva Trágica’ -, mas ele certamente está lúcido, ativo, nunca se desligou do audiovisual e, na Globo, deu audiências que o parecerista, provavelmente, nem sonha. Será, o tal parecerista, um cineasta frustrado, um crítico? Os ressentimentos afloram onde não se espera. Ontem, no encerramento da Mostra Panorâmica, Márcio Garcia mostrou seu curta ‘Predileção’. Concedo que seja um curta portfólio, que o habilita para projetos maiores. Há não sei quantos anos integrei uma comissão da Petreobrás. Matheus Nachtergaele nos submeteu ‘A Festa da Menina Moça’. Não fui o único a antecipar o grande filme que já estava ali, mas Matheus não tinha dirigido nada, as próprias regras da seleção o deixaram de fora. Se tivesse um curta, ou dois, no portfólio, ‘A Festa’ poderia ter surgido antes. Volto ao Márcio. Aproveitando a presença do diretor na sala – e havia muitas garotas, público jovem, a sessão era aberta, que delirou quando ele subiu ao palco -, alguém, que eu sei quem, aproveitando a escuridão, gritou – ‘Mas que filme ruim, hein Márcio?’ Não creio que ‘Predileção’ seja ruim. É um thriller muito bem produzido e que  utiliza códigos narrativos hollywoodianos, mas conta sua história de forma sucinta e criando, com o mínimo de informações, personagens consistentes. Milhem Cortaz é o assaltante manipulado pela mulher fatal Guilhermina Guinle e ela tem uma ambiguidade, uma dureza a despeito da beleza do rosto, que a mise-en-scène destaca num jogo muito interessante de olhares. Vi ontem o filme pela terceira vez e Guilhermina sempre me prende o olhar, mais do que as perseguições (bem filmadas, por que não?). Vou em frente. Maurice Capovilla lançou ontem um projeto que parece muito legal, ‘Nervos de Aço’. Um grupo de jovens quer montar um espetáculo sobre o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues. ‘Você sabe o que é ter um amor, meu senhor/ter loucuras por uma mulher…’ Grande Lupi. Ninguém é gaúcho, brasileiro, se não tiver curtido suas dores de amor ao som de Lupicínio. Espero que Capô, com quem não tive oportunidade de conversar porque estava vendo o filme sobre Mário Peixoto, acerte o tom. Lupi e o próprio Capovilla merecem um belo filme. Finalmente, encontrei meu amigo Tabajara Ruas, a mulher dele, Lígia Walper, e o filho de ambos, que estreia no cinema – acho que é a estreia – em ‘Os Senhores da Guerra’. Lígia me mostrou o promo. O filme é uma encomenda, mas as imagens me seduziram. É uma adaptação do romance de José Antônio Severo, que foi meu editor (na ‘Folha da Manhã’). A história de dois irmãos, um maragato e outro chimango. Encontram-se/defrontam-se no campo de batalha. Taba está fazendo dois filmes, que vão compor um díptico. Achei as cenas de ação muito fortes, com as cargas de cavalaria e as pessoas estropiadas – o forte do Tabajara. São 600 cavalos. 600! Taba é fordiano de carteirinha. Acredita na glória dos derrotados. Alguém que via o promo observou – ‘É o nosso John Ford.’ Brinquei, exagerando de propósito – ‘Que nada! John Ford era o Tabajara deles.’ Neusinha Barbosa e Orlando Margarido não me perdoaram o delírio pampeiro e tiraram sarro. Mas a imagens de ‘Os Senhores da Guerra’ prometem. Um épico gaúcho. uma saga familiar. Estou nos cascos, doidinho (Maria do Rosário Caetano vai entender a piada) para que fique bom.