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Cultura » Para quando o ‘meu’ Tarzan?

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Luiz Carlos Merten

23 Novembro 2009 | 09h50

Não sou muito de reproduzir no blog matérias que escrevi para o jornal, mas vocês vão entender, daqui a pouco, porque transcrevo este texto sobre Emilio Salgari. Quero falar de alguns lançamentos de Tarzan em DVD – a série antiga, com Johnny Weissmuller e Maureen O’Hara -, que encontrei em lojas do centro. Salgari (e seu herói Sandokan) e Edgar Rice Burroughs (com Tarzan) foram fundamentais para moldar meu imaginário, nos anos 1950, quando os olia vorazmente.

Talvez seja preciso desistir da isenção jornalística e escrever na primeira pessoa, apaixonadamente. Há anos perseguia em sebos velhos exemplares das aventuras de Tarzan e Sandokan. Os próprios donos me desestimulavam. Nada mais raro do que encontrar colecionadores dispostos a abrir mão dos exemplares da lendária Coleção Terramarear, da Editora Melhoramentos. Aqueles livros moldaram meu imaginário, com os westerns no cinema. Não só o meu. Lêdo Ivo escreveu seu volume ‘A Ética da Aventura’ pegando carona nas leituras de seus verdes anos. E me lembro de ter lido certa vez o que ele disse e me marcou – muita gente pensa que escritor é só Marcel Proust ou James Joyce, mas ele acreditava, como eu acredito, que o valor do escritor é dado pelo leitor. Emilio Salgari sempre foi importante para mim.
Confesso que tomei um susto ao descobrir, nas chamadas de novos livros que o Cultura, do Estado, publica aos domingos, que os volumes que buscava em sebos estavam saindo novos em folha. Salgari! Sandokan! Para quando o Tarzan? Lembro-me de ter 9 ou 10 anos quando comprei meu primeiro livro. Era um volume da Terramarear, A Volta de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Somente depois li o primeiro da série com o homem-macaco e, em seguida, devorei toda a coleção. Hollywood nunca fez justiça à imaginação de Burroughs. Em seus livros, Tarzan viajou ao centro da Terra, descobriu Camelot e o Império Romano no coração da África, decifrou o mistério de Opar, onde reinava a sacerdotisa La, e se envolveu com a sedutora Nemone, com seu leão de ouro. Nada disso passou para o cinema. Indago-me com frequência: como seria hoje
(re)ler aquelas aventuras?
Embora seja uma animação, Ratatouille, de Brad Bird, é um dos grandes filmes dos últimos anos e a cena em que o crítico gastronômico reencontra o tempo perdido realiza o que gênios como Visconti e Losey gostariam de ter feito, se tivessem conseguido adaptar Proust. Salgari teve mais sorte que Burroughs no cinema. Na verdade, eu o vi, antes de ler. Era ávido consumidor das aventuras de Sandokan, com Ray Danton, e mais tarde consegui ver o herói interpretado por Kabir Bedi na TV italiana. Também li Salgari primeiro em espanhol, antes que em português, porque sempre tive dificuldade para encontrar seus livros no Brasil. Reli agora ‘Os Mistérios da Selva Negra’ e ‘Os Piratas da Malásia’ e não me decepcionei. Spielberg e seus roteiristas também devem tê-lo (re)lido. Muita coisa de ‘Indiana Jones e o Templo da Perdição’,
as câmaras subterrâneas, os sacrifícios humanos, os adoradores da deusa da morte, tudo parece saído de Salgari.
Faltam menos de dois anos para se completar (em abril de 2011) o centenário de sua morte, por suicídio. Não sei por que ele terminou relegado ao segundo time dos escritores de aventuras, distante de Walter Scott, Alexandre Dumas e Júlio Verne. Me encanta nele a existência desses personagens nobres, capazes de qualquer sacrifício em nome da honra e da amizade e sempre a postos para defender fracos e oprimidos das garras de opressores variados, sejam califas, fanáticos hindus ou representantes da Coroa espanhola no Caribe. O mundo – e o cinema – não teriam tido o mesmo fascínio para mim, sem Emilio Salgari (e Sandokan).