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Cultura » Para onde vai a classe operária?

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Luiz Carlos Merten

24 Junho 2009 | 13h26

Havia selecionado ‘A Classe Operária Vai para o Paraíso’, de Elio Petri, lançamento da Versátil, para abrir a página de hoje de DVD do ‘Caderno 2’, mas tive de substituir meu texto porque Luiz Zanin Oricchio está preparando outro sobre o mesmo filme para a edição de domingo do ‘Cultura’. Terminei optando por ‘As Duas Faces da Felicidade’, de Agnès Varda, e tive grande prazer em falar sobre o filme e a autora, que teve a importância que todo cinéfilo e/ou historiador de cinema reconhecem, no alvorecer da nouvelle vague. Volto agora ao Petri no blog. Nunca tive oportunidade de entrevistar Michael Mann, mas tenho para mim que o autor norte-americano refaz em Hollywood o cinema sofista do italianio Petri. Não me parece mera coincidência que Tom Cruise, em ‘Colateral’, termine morrendo solitário naquele trem, como o personagem de Salvo Randone em ‘Os Dias São Numerados’. Quanto a ‘O Assassino’, com Marcello Mastroianni, é o filme na origem de ‘Miami Vice’. Feita a digressão, quero dizer que Petri foi um dos diretores cuja carreira acompanhei na íntegra. Quando ele morreu, em 1982, contestado como autor ‘político’, eu me sentia alienado como um de seus personagens – estava há quase uma década, ou mais, sem escrever sobre cinema, salvo textos esporadicos. Fazia sindicalismo. Era outra fase, outra época, quase outra vida. Petri ingressou no cinema como roteirista e assistente de Giuseppe De Santis, teórico neo-realista que sempre representou a vertente mais ‘social’ do movimento. Jean Tulard diz que Petri foi um crítico ‘acerbo’ da sociedade italiana. O crítico gaúcho Enéas de Souza, em ‘Trajetórias do Cinema Moderno’, assumiu o risco de analisar a obra do autor, colocando-o entre os ‘grandes’, a partir, basicamente, de um só filme – ‘O Assassino’, no qual identificou em Mastroianni o personagem sofista do cinema italiano. O melhor Petri começa com ‘Condenado pela Máfia’, em 1966. De todos ops filmes de Máfia, incluindo os de Coppola, é um dos melhores. Gian-Maria Volontè e a trágica grega Irene Papas, na pele de siciliana, são magníficos. Vieram depois ‘Um Lugar Tranquilo no Campo’, desconcertante porque não necessariamente ‘político’, e na sequência ‘Investigação sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita’ e ‘A Classe Operária’. Petri é, acima de tudo, o cineasta que investiga a alienação. Volontè é o policial que se crê tão poderoso que mata para provar que permanecerá impune em ‘Investigação’. Lulu Massa, o operário de ‘A Classe’, produz mais do que qualquer de seus colegas na fábrica, mas não tem consciência de classe e só quer consumir. Petri cria esses personagens excessivos porque, como diz Tulard, seu protesto se faz num universo de pura ficção. Lulu perde um dedo na fábrica, deixa de interessar, por sua eficiência, como modelo de produção aos patrões, mas é apoiado pelo sindicato e inicia um processo de conscientização galopante. Termina num diálogo de loucos com outro operário que foi internado num instituto psiquiátrico. ‘A Classe Operária’ dividiu com ‘O Caso Mattei’, de Francesco Rosi, a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1972, que foi a grande vitrine da consagração internacional do cinema político italiano. Mas Petri nunca foi uma unanimidade. Os críticos mais à esquerda, os militantes da época, diziam que ele próprio era alienado e denunciavam ‘A Classe Operária’ como exemplo de confusão política. Nunca vi o último filme de Petri, ‘Le Buone Notizie’. Para mim, ele se despediu com ‘Juízo FinaL’ (Todo Modo), adaptado de Leonardo Siascia, em 1975. De novo Volontè, agora num hotel subterrâneo, povoado por estátuas religiosas barrocas, onde ocorrem assassinatos. O filme denuncia a classe dirigente da Itália, Volontè é Moro, sacrificado pela Democracia Cristã, que percebeu que precisava de um mártir para se fortalecer no combate ao terrorismo. O cinema de Petri é metafórico, mas ele era, sempre foi, seduzido pelo espetáculo. Dizia que era difícil, senão impossível, chegar sem ficção ao grande público. Em nome do realismo, foi patrulhado (e contestado). Foi um visionário. Lulu, o operário, sonha ser classe média para consumir. Petri, há 37 anos, já antecipava a sociedade de mercado.