As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Para Onde Ir?, 60 anos de um clássico

Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2017 | 09h28

Assisti ontem a Para Onde Ir?, na Mostra Mundo Árabe. O longa de Georges Nasser foi o primeiro representante do Líbano a integrar a seleção de Cannes – em 1957. Há 60 anos! Geraldo Adriano Campos, que faz a curadoria do evento, me disse que há tempos perseguia esse filme porque trata de imigração, e para o Brasil. A versão agora restaurada passou em Cannes, em maio. Cinema de herança neo-realista, em preto e branco, mas como os clássicos bengalis de Satyajit Ray ou, para permanecer no mundo árabe, os do egípcio Youssef Chahine, são impregnados de cantos e elementos folclóricos. Há toda uma sequência de casamento feita de cantos e dança somente de homens. É claramente um cinema de outro tempo, e com outro tempo de cinema, mas que me tocou muito. Embora existam muitos filmes sobre migrações, a originalidade do de Nasser está no fato de que ele não narra sua história do ângulo de quem parte, mas dos que ficam. O marido vem tentar a sorte no Brasil, a mulher e os dois filhos permanecem. A mulher enfraquece no trabalho duro e o filho mais velho sacrifica-se. Abandona o estudo para se dedicar à labuta na terra. O irmão que estudou, quando cresce, também quer partir. O resiliente tira da terra o sustento. Há uma idealização romântica – a terra boa é como o Brasil. Plantando, tudo dá. O pai regressa, não é reconhecido nem pertence mais a esse mundo, a essa família, que no entanto resguarda através de outro gesto anônimo de grandeza, doando sangue. Um ano antes, John Ford filmou John Wayne fora da casa no desfecho de Rastros de Ódio. O mesmo final em Para Onde Ir? Nasser filma o que não deixa de ser um fracasso, mas seu tema é a beleza e a generosidade da terra. Gostei de ter visto Para Onde Ir?
O cineasta formou-se na UCLA, a Universidade da Califórnia, mas, como o cinema brasileiro dos anos 1950, Nelson Pereira dos Santos e Roberto Santos, o libanês (e com mais razão) é mediterrâneo, com o pé na Itália, e no neo-realismo. Ford e o neo-realismo, como sistema de produção. Gostei. Hoje à noite pretendo ver Out of Frame/Fora de Quadro. O cinema palestino, militante por excelência. É todo um mundo que o cinema árabe está me revelando.