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Para o Celdani (ou para mim?)

Luiz Carlos Merten

24 Agosto 2008 | 13h36

No seu comentário no post sobre Ida Laura, Celdani lembra que o ‘Estado’ teve grandes críticos e cita especificamente o Rubem Biáfora, que também foi diretor (‘Ravina’ e ‘O Quarto’). Como o assunto do post era a morte de Ida, citei que o ‘Estado’ teve grandes críticas – mulheres – Ilka Marinho Zanotto, Pola Vartuk e ela, mas sem dúvida que o jornal também teve grandes críticos homens. Até hoje não sei se Luiz Israel Febrot era só colaborador, mas muitas vezes folheando velhas pastas no arquivo, principalmente de filmes e diretores dos anos 60/70, de um recorte mais político, encontro análises excelentes assinadas por ele. No suplemento literário, que depois virou cultura, colaboravam Paulo Emílio Salles Gomes, Rogério Sganzerla, Walter Hugo Khouri e muitos outros. Conheci a Pola aqui no jornal, Ilka Marinho me deu a honra de freqüentar um curso meu de cinema, quando ainda o fazia, e conheci superficialmente Paulo Emílio, que foi certa vez a Porto Alegre e eu, jovem repórter, o entrevistei para a ‘Folha da Manhã’. Na época, a censura havia apreendido, ou ameaçava apreender, ‘Gritos e Sussurros’ e eu fazia a maior campanha pela liberação, para que as pessoas pudessem ver o filme que eu tanto admirava (e continuo admirando hoje). Impliquei com Paulo Emílio porque, em seu discurso, ele minimizava o episódio, mesmo sendo contrário à censura, dentro de sua campanha segundo a qual o melhor filme estrangeiro não valia o pior nacional. Com o tempo, compreendi melhor o sentido do que ele queria dizer e até li com prazer muitos de seus textos no Suplemento Literário, que foram reunidos em livros, mas nunca reencontrei o Paulo Emílio, que já morrera (em 1977, fui checar a data) quando cheguei a São Paulo, no final de 1988. Também nunca falei com Rubem Biáfora, embora tenha ido a uma homenagem que ele, já muito debilitado, recebeu no Centro Cultural São Paulo, pouco antes de morrer, em 1996. Não saberia avaliar quanto cada uma dessas pessoas contribuiu para a minha formação, até porque morava em Porto Alegre e o pensamento teórico não circulava como hoje (não havia internet). De qualquer maneira, tinha um irmão que trabalhava na Varig e ele me levava jornais coletados em aviões – ‘The New York Times’, ‘Correio da Manhã’, a ‘Última Hora’ de SP. Acompanhava as críticas de Vincent Canby, lia as de Jean-Claude Bernardet na imprensa diária, e algumas me marcaram muito, como o seu entusiasmo, no calor da hora – que eu compartilhei -, sobre ‘O Bandido Giuliano’, mas confesso que nunca segui muito o pensamento crítico de Jean-Claude em livro, conhecendo mais o autor de ficção. Amava o Antônio Moniz Vianna, porque se havia um lado meu apaixonado pelo Francesco Rosi (e por Visconti, Fellini, Antonioni, Losey etc) havia outro que carregava John Ford num panteão particular e ninguém, no Brasil, acho que amou tanto o cinema do Homero de Hollywood quanto ele. Em Porto Alegre, P.F. Gastal, o Calvero, do antigo ‘Correio do Povo’ e da ‘Folha da Manhã’, foi muito importante, mesmo que na maioria das vezes eu não concordasse com ele. Gastal desprezava autores que eu curtia intensamente – Riccardo Freda, Vittorio Cottafavi, mas eu me lembro que, surpreendentemente, para mim, ele amou ‘Os Filhos do Trovão’, de Duccio Tessari – e se eu estou contando tudo isso, a partir do comentário de Celdani, é para fazer justiça, agora, a um cara que foi fundamental para mim. Nunca conheci Valdir Enor Koch, não sei se está vivo nem quantos anos tem, mas também nunca esqueci seu nome. Ele escrevia no mural do Colégio Júlio de Castilhos, quando lá estudei, nos anos 50 e princípio dos 60. Às vezes, discordava violentamente do Valdir, como quando ele caiu matando no ‘Psicose’ (de Hitchcock), mas no geral ele tinha um gosto interessante por diretores alternativos. E, ao escrever no mural do colégio, o Valdir me apontou o caminho que segui depois, ao colocar no mural da Faculdade de Arquitetura, em Porto, meu primeiro texto (sobre ‘Um Clarim ao Longe’, de Raoul Walsh). Na Faculdade de Arquitetura, recebíamos a revista ‘Arquitetura’, que nem sei se ainda existe, ou quando terminou, e nela escrevia Cacá Diegues, que me apontou outo caminho, o de Roberto Rossellini. Lia o que ele escrevia sobre ‘Francisco, Arauto de Deus’ e ‘Viagem na Itália’. Tive um choque quando assisti a esses filmes. Estou aqui revelando o ecletismo das minhas primeiras influências. A todas essas pessoas, aos vivos e aos mortos, o meu obrigado.

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