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Para o amigo Mauro

Luiz Carlos Merten

17 Março 2010 | 09h25

Biógrafo e analista de obra de Nicholas Ray, Pierre Giuliani não dedica muita reflexão a ‘A Vida Íntima de Uma Mulher’ (A Woman’s Secret), segundo longa do diretor, de 1948. O próprio Ray não guardava uma boa lembrança do filme e, nos anos 1970, entrevistado por ‘Cahiers du Cinéma’, apenas dizia que o havia feito preso por contrato à RKO. E, no entanto, havia motivos para supor que a lembrança fosse um pouco mais indelével. Afinal, o filme era interpretado por sua mulher, Gloria Grahame, no começo da intensa relação dos dois; tinha roteiro de Herman Mankiewicz, irmão de Joseph e (co)autor de ‘Cidadão Kane’, além de ter sido produzido pelo mentor de Ray, Dore Schary, que era um executivo poderoso na RKO. Vamos por partes. Ray havia feito teatro, nos anos 1930, com Elia Kazan e Joseph Losey. Por meio desse último, chegara a Dore Schary, primeiro no rádio. Ray fazia as emissões de um programa de música country, o que o aproximou também de Woody Guthrie. O cantor e compositor pautava sua obra pelo engajamento social. e todos, Kazan, Losey, Ray, Guthrie e Schary, se inscreviam numa consciência de esquerda muito forte na época. Chamado por Schary, Ray dirigiu um espetáculo de apoio ao presidente Roosevelt em Nova York e a cerimônia de entrega dos Oscars, transmitida pelo rádio, em 1946. Schary lhe permitiu fazer seu primeiro filme na RKO, ‘They Live by Night’, versão um tanto livre da história de Bonnie & Clyde, lançada no Brasil como ‘Amarga Esperança’. No mesmo ano, Schary lhe propôs que fizesse ‘O Segredo de Uma Mulher’, mas Ray tentou recuar. Pediu ao amigo que, pelo amor de Deus, o poupasse da experiência, Ray não gostava do formato em puzzle do roteiro, que não deixava de ser uma variação de ‘Cidadão Kane’, nem das personagens. Maureen O’Hara se envolve com a cantora Gloria Grahame, essa última é baleada, Maureen assume que disparou o revólver, mas fica a controvérsia – ela realmente atirou, e por que? Os flash-backs às vezes são contraditórios e mais confundem do que esclarecem, o que indica que Herman Mankiewicz, três anos antes, talvez estivesse se antecipando à multiplicidade dos pontos de vista das confissões de ‘Rashomon’ de Akira Kurosawa, que ganharia o Leão de Ouro em Veneza, 1951, impondo internacionalmente o cinema japonês. A ideia do filme era realmente intrigante e complexa, pois Maureen é levada a odiar a mulher (Gloria) cuja carreira ajudou a construir, mas o filme não me marcou, a ponto de não guardar nenhum momento particular, e olhem que gostop de Maureen como de Gloria Grame. Logo em seguida, veio um filme mais pessoal de Ray, ‘Knock On Any Door’, O Crime Não Compensa, primeiro de dois, seguidos, que ele fez com Humphrey Bogart (na produtora Santana, do ator). O outro, o noir ‘No Silêncio da Noite’, In a Lonely Place, dispõe da reputação de ser um clássico, mas tenho para mim que é um tanto superestimado. O lançamento de ‘A Vida Íntima de Uma Mulher’ é da Cult Classics, no mesmo pacote que tem ‘Os Vivos e os Mortos’ e eu prometo voltar , não ao clássico de John Huston, mas a Nicholas Ray. Daqui a pouco…