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Para não perder o trem (da história)

Luiz Carlos Merten

03 Abril 2009 | 16h41

Lá vou eu falar de trens, antes de sair para assistir a ‘Lanchonete Olímpia’. Quero ver se o filme de Steve Barron é mesmo merecedor do elogio de Steven Soderbergh, que diz que é o que todo filme independente deveria ser, ou se é um equívoco a mais do diretor de ‘Che’. Feita a provocação, vamos aos trens. São tantos na história do cinema – ‘A Dama Oculta’, de Alfred Hitchcock; ‘Expresso para Berlim’, de Jacques Torneur; ‘Rumo ao Inferno’, de Richard Fleischer; ‘Nove Horas até a Eternidade’ e ‘O Expresso de Von Ryan’, de Mark Robson; ‘Trens Estreitamente Vigiados’, de Jiri Menzel; ‘Assassinato no Orient-Express’, de Sidney Lumet; ‘Expresso para o Inferno’, de Andrei Konchalovski etc. Há o caso radical do cinema-trem de Alexander Medvedkine, cujo filme clássico, ‘A Felicidade’, é por muitos considerado, graças a seu espírito satírico, a obra-prima do cinema soviético sob Stálin. Seria tema para horas de análise o uso que Alfred Hitchcock e David Lean faziam dos trens – metáfora sexual ao entrar no túnel, na última cena de ‘Intriga Internacional’, mas o que é exatamente o trem de Raskolnikov em ‘Doutor Jivago’ (agora me confundo – é nele ou em outro que viaja acorrentado o personagem de Klaus Kinski, que faz um discurso amargurado contra a revolução de outubro de 1917, lembram-se?). Ainda para David Lean, Victor Banerjee, o Dr. Aziz, pendura-se feito criança na parte externa do trem que o leva, com Adela Quested e Mrs. Moore, para a fatídica caverna de Marabar; Lawrence, Peter O’Toole, pavoneia-se no alto daquele vagão, com o sol filtrando-se entre suas vestes brancas, numa daquelas cenas em que o personagem libera seu narcisismo (e homossexualismo reprimido); e Trevor Howard e Celia Johnson encontram-se, afinal, numa estação de trens no sublime ‘Desencontro’, bem no começo da carreira do grande diretor. Talvez me arrependa daqui a pouco e queira refazer o post – a pressa é sempre inimiga da perfeição e eu preciso sair logo –, mas a imagem acabada do trem no cinema, para mim, é a de ‘The Shanghai Express’, O Expresso de Shanghai, um grande Sternberg, de 1932, com Marlene como Shanghai Lily, Clive Brook como seu ex e Warner Oland como o cruel senhor da guerra, todos presos nas tensões daquele vagão mítico. Josef Von Sternberg era obcecado por controlar cada centímetro da tela. Ele detestava filmar em exteriores. Reconstituiu a selva em estúdio em seu último filme, ‘Anatahan’, que conta a resistência de um grupo de soldados japoneses, anos após a capitulação do Japão. A guerra nunca foi mais irreal – nem a de Coppola em ‘Apocalypse Now’ – do que em ‘Anatahan’. De volta a ‘Shanghai Express’, a fotografia é deslumbrante e deu a Lee Garmes o Oscar, ressaltando o delírio cenográfico e o cuidado do diretor com o figurino. Afinal, Sternberg ‘esculpiu’ o mito de Marlene e ela era o seu fetiche, um objeto de desejo que ele utilizava para contar histórias de homens enganados por mulheres e de homens e mulheres enganados por aparências.