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Para não dizerem que não leio…

Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2009 | 13h41

Jantei na terça-feira com meus amigos Gabriel Vilella e Cláudio Fontana, que chegaram do antigo Leste Europeu (estiveram na Bósnia, com passagens por Viena e Budapeste, com Walderez de Barros). Havia pedido ao Gabriel alguma revista de cinema e ele me trouxe exemplares recentes de três – ‘Cinéaste’, ‘Film Comment’ e ‘Empire’. Acho que vou ter assunto para muitos posts. ‘Empire’ lista os ícones da década que se encerra – 007 (Daniel Craig), Bourne (Matt Damon), a Noiva (Uma Thurman em ‘Kill Bill 1 e 2 – a propósito, li ontem num daqueles noticiários de elevador que Tarantino está prometendo o 3 para 2011), Máximus (Russell Crowe, em ‘Gladiador’), Wolverine (Hugh Jackman), Aragorn (Viggo Mortensen), Jack Sparrow (Johnny Depp em ‘Piratas do Caribe’), Harry Potter, o Coringa (Heath Ledger)… As duas páginas dedicadas a cada um deles vêm acompanhadas de um quadrinho – ‘almost icons’, quase ícones. Hayden Christensen como Darth Vader, Gollum, Borat, Ron Burgundy, Edward Cullen (sim, Robert Pattinson), Donnie Darko, mas o melhor de todos é ela, Donna Sheridan, aliás, Meryl Streep, que a revista aponta – e eu não sabia – como o maior sucesso de todos os tempos no Reino Unido, recordista absoluta de bilheteria (por ‘Mamma Mia’, claro!). Pode até ser que o filme, no limite, venha a ser uma porcaria, mas a revista também correu o mundo (Londres, Paris, Genebra, Madri, Adelaide, Los Angeles, Nashville) para entrevistar as sete mulheres de ‘Nove’, acrescentando que elas, as estrelas do novo musical de Rob Marshall, formam o elenco do ano. ‘Nove’ é a versão, com canto e dança, de ‘Oito e Meio’, o cult de Fellini, o que em princípio parece uma heresia, mas vou dar um voto de confiança. Bob Fosse, o mestre de Marshall, era devoto de Fellini e até andou pela trilha do mestre italiano. As sete divas são – Penelope Cruz, como a amante; Marion Cotillard, a mulher; Nicole Kidman, a estrela; Judi Dench, a confidente; Kate Hudson, a repórter; e Stacy Ferguson, a p… Já contei que, na minha participação na série ‘Os Filmes de Minha Vida’, durante a Mostra, fui cobrado por não haver incluído, espontaneamente, nenhum filme de Fellini. Diante da pressão, citei ‘Oito e Meia’ e a Saraghina como minha personagem felliniana favorita, mais do que as de Giulietta Masina em ‘A Estrada da Vida’ e ‘As Noites de Cabíria’. Scott Ferguson parece fazer uma Saraghina sensacional. Adorei o que ela diz da figura – ‘É muito telúruca. Tudo nela é animal, remete à emoção, aos sentimentos.’ Em ‘Cinéaste’, encontrei três perfis que me interessaram muito – de Mosehn Makhmalbaf (‘Um cineasta nas barricadas’), Satyajit Ray (‘As vicissitudes do liberalismo’) e Philippe Garrell (‘O espetáculo da intimidade’). Esse último traz uma foto linda – o próprio Garrel, ator de ‘Les Baisers de Secours’, de 1989, passeando com a mulher (de verdade), Brigitte Sy, e o filho garotinho, num triciclo. Sim, Louis Garrel… Como se não bastassem esses textos – que me interessaram e pretendo ler –, a sessão de DVDs dedica páginas e páginas a ‘O Grito’, de Antonioni; ‘O Anjo Exterminador’, de Buñuel; ‘O Ano Passado em Marienbad’, de Resnais; e ‘Wise Blood’, o único filme de John Huston que acho que não vi. Finalmente, ‘Film Comment’. Só esta me dá assunto para os próximos anos. A revista põe nas nuvens o novo Resnais, ‘Les Herbes Folles’, propõe uma análise teológico/cinematográfica de Lars Von Trier, ‘Os seis mandamentos do Anticristo’, revisa/revisita o neo-realismo (‘Nothing but the truth?’, Nada além da verdade?) e tece altos elogios, deu para ver pelo título e o olho da matéria, a ‘Bright Star’, de Jane Campion, do qual também gostei muito. Obrigado, Gabriel. E aguardem os desdobramentos.