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Para Mário Carneiro, grande poeta da imagem

Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2007 | 15h31

Tive de fazer um exame (uma endoscopia) hoje pela manhã. A funcionária que me aplicou um sedativo no laboratório disse que eu ia querer dormir. Retruquei que dormir, coisa nenhuma, que eu tinha muito trabalho para fazer. Tinha uma capa, os filmes na TV. Tive mais, infelizmente. Morreu Mário Carneiro, o grande fotógrafo do cinema brasileiro, que está sendo enterrado agora à tarde no cemitério São João Batista, no Rio. Arquiteto, gravurista, pintor, MC foi um artista multimídia que teve uma educação sofisticada. Era filho de diplomata e foi um freqüentador assíduo da Cinemateca Francesa, nos anos em que morou em Paris. De volta ao Brasil, descobriu Limite, de Mário Peixoto, e seduzido pelo trabalho do fotógrafo Edgar Brasil descobriu que era aquilo que queria fazer. Fez filmes amadorísticos antes de co-dirigir, com Paulo César Saraceni, o curta Arraial do Cabo. Fotografou o curta Couro de Gato, de Joaquim Pedro, e prosseguiu, no longa, a parceria com os dois, fotografando Porto das Caixas, O Padre e a Moça… A parceria com Saraceni foi a mais constante. MC fiotografou, salvo engano, todos os filmes de Saraceni. Fotografou também Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro, de Domingos de Oliveira. Era um mestre do preto-e-branco. Quando descobriu a cor – A Casa Assassinada, por exemplo –, permaneceu rigorosamente intimista. MC nunca carnavalizou a cor, nem quando fotografou Natal da Portela, do Saraceni, fazendo um belo trabalho que destacava as cores da escola – azul e branco. Mais recentemente, MC fotografou os filmes de Joel Pizzini, que se referia a ele como ‘o Mestre’ ou ‘o Poeta’. Em 1976, atendendo ao pedido de Glauber Rocha, MC fez, com a câmera na mão, o curta Di de Glauber, que é um trabalho impressionante dos dois, do diretor e do fotógrafo. No mesmo ano dirigiu seu único longa de ficção – acho que é o único; os outros são todos documentários, curtas ou longas -, Gordos e Magros, uma metáfora sobre o choque entre dois Brasis, o dos ricos (gordos) e o dos pobres (marcos). Com a morte de MC, não é só um fotógrafo ou um diretor que se vai. É todo uma época da cinema brasileira, toda uma era de brilho e cultura, da qual ele foi um dos dos maiores representantes. Estou pensando no título a dar a este post. Não quero ser melodramático. MC deve ser uma das raras personalidades do cinema nacional com quem nunca falei, nestes quase 20 anos em que estou no Estado de S. Paulo. Em Porto Alegre, era mais difícil conhecer as pessoas. Aqui, termino convivendo com muitas. Nunca apertei a mão de MC, nunca o abracei com o respeito que deveria a um artista fundamental. Engraçado – de todas as fotografias do Mário me veio agora a de Todas as Mulheres do Mundo. Paulo, isto é, Paulo José, na praça com Maria Alice, Leila Diniz. Os dois ficam cercados pelas pombas, cujo movimento sincopado, em câmera lenta, vira quase uma animação quadro-a-quadro (e com a música de Gabriel Fauré de fundo!). Se o título pudesse ser uma frase musical, seria a de Fauré no filme.