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Cultura » Para Maria, que habita meu céu de cinéfilo

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Luiz Carlos Merten

03 Fevereiro 2011 | 15h19

Morreu Maria Schneider. Acabo de redigir o texto sobre ela para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Tive uma manhã infernal. Um monte de matérias, entrevistas. No calor da hora, cheguei até a fazer a ponte entre ‘O Vencedor’ e meu amado ‘Rocco e Seus Irmãos’. A complicada relação entre dois irmãos, a mãe que, no fundo, prefere seu bad boy. Sei que parece meio estapafúrdio, mas duvido que a relação que estabeleço com o filme de David O.Russell que estreia amanhã, seja despropositada. Mark Wahlberg tem feito muitos filmes sobre ‘família’. Lembram-se de ‘Caminho sem Volta’ (The Yards), de James Gray? Quando a entrevistei em Cannes, Charlize Theron me disse que James Gray era louco por Visconti e que passou muitas vezes ‘Rocco’ para ela, para Mark Wahlberg e Joaquin Phoenix. Ninguém assiste àquele filme impunemente. Algo ficou no imaginário de Mark Wahlberg e ‘O Vencedor’ é a prova. Mas eu volto a Maria Schneider. Ela morreu aos 58 anos, em Paris, de uma longa enfermidade (que as agências de notícias não esclarecem qual era). Tinha 19 anos quando fez seu filme mais famoso, ‘Último Tango em Paris’, de Bernardo Bertolucci, ao lado de Marlon Brando. Quem é jovem não faz ideia do que foi a batalha deste filme. ‘Último Tango’ foi censurado pela censura do regime militar, mas, sei lá por quê – afinal, Uruguai e Argentina também viviam sob ditaduras -, conseguiu estrear em Montevidéu e Buenos Aires. Formavam-se excursões de cinéfilos, saindo de Porto Alegre, para assistir ao filme da ‘manteiga’. É o lubrificante que Marlon Brando usa na cena em que sodomiza Maria Schneider. O filme é um clássico total. Não gosto muito das cenas ‘godardianas’, meio caricatas, com Jean-Pierre Léaud, mas a experiência é visceral e eu diria até seminal. Aquele monólogo de ‘Paul’, isto é, Brando, junto ao cadáver da mulher, é um momento de antologia. Brando estava morto em Hollywood. Era veneno de bilheteria, exorcizado pelos produtores. Dois filmes o salvaram – ‘Último Tango’, o máximo do cinema de autor, e ‘O Poderoso Chefão’, que virou um fenômeno de ‘mercado’, mas quem podia adivinhar, na época, que o diretor, Francis Ford Coppola, iria dar aquela guinada? Brando renasceu. Maria Schneider, por conta do machismo ou o quê, ficou estigmatizada. Embora não tenha havido penetração, a enrabada, me perdoem a vulgaridade, levou as pessoas a olharem Maria de forma diferente. A cena não existia no roteiro. Foi inventada na hora por Bertolucci e Brando. Maria, muito jovem, entrou de gaiata. Ela dizia que, mesmo sem penetração, Brando foi tão brutal, para servir ao personagem, e ela se sentiu humilhada pelos dois machos. Quem chorava era Maria, não a personagem. Brando nem se desculpou pelo ‘realismo’. Disse que era só um filme. Maria nunca mais dirigiu a palavra a Bertolucci, nem durante a filmagem. Numa entrevista posterior, tratou-o como gigolô. Pouca gente se lembra dos outros filmes que ela fez – ‘O Passageiro, Profissão: Repórter’, de Michelangelo Antonioni, ao lado de outro mito de Hollywood, Jack Nicholson, talvez. Foram 52 filmes, para cinema e TV, mas o que ficou foi ‘Último Tango’. Marushka Detmers sofreu, sofre, o mesmo preconceito. Depois do sexo oral de ‘O Diabo no Corpo’, de Marco Bellocchio, ela disse que todo homem passou a olhar fixamente para sua boca, numa mensagem que a deixava gelada. ‘Sou uma atriz, não uma p…’, Maruschka bradou numa entrevista. Maria Schneider pode ter ficado traumatizada, e com certeza ficou. Mas o filme, e ela, são grandes. Troquei o título do post. Antes mesmo de redigir o texto havia colocado ‘Maria, a da manteiga’. Pelo caminho a que me levou, seria ofensivo. Ficou esse que vocês leram, um pouco piegas, mas não faz mal.