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Para lembrar Perlov

Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2006 | 14h35

Já ficou tarde para sugerir que o leitor corra ao Unibanco Arteplex, para ver o Diário 1 e 2 de David Perlov. A exibição começou às 14 horas, mas às 16h10 tem o Diário 3 e 4 e às 18h20 o 5 e 6. Na verdade, foi a Flávia Guerra que me lembrou – quando Perlov esteve no Brasil, para ser homenageado pelo Festival do Cinema Judaico, em 2003, entrevistei-o no hotel. Era um velhinho simpático e comunicativo, que andava se queixando da fadiga. A entrevista foi publicada em 11 de novembro (e a Flávia a encontrou no arquivo do Estado, em busca de informações sobre o diretor). Perlov conta no texto como causou alvoroço no festival judaico. Foi um dia ou dois antes da entrevista, quando se sentiu mal. ‘Pensaram que ia morrer”, ele me disse e estava achando divertido. Na verdade, 14 dias mais tarde, em 13 de dezembro, Perlov morreu em Tel-Aviv, o que faz daquela fadiga algo premonitório. E agora o seu Diário está aqui na Mostra. Cineasta israelense de origem brasileira, Perlov tinha pouco mais de 20 anos quando foi a Paris para estudar pintura. Descobriu o cinema e mudou o eixo de sua vida. Virou diretor. Tinha 43 anos quando houve outra grande mudança de eixo. Ele fazia pequenos filmes e documentários institucionais em Israel, onde passara a residir, quando teve o estalo. Em vez de dirigir sua câmera para o mundo, para filmar os outros, Perlov resolveu que iria dirigi-la para si mesmo, fazendo o Diário. E começou essa série em que vida pública e privada coincidem e o autor, falando de si, consegue documentar as transformações do mundo. Foi uma conversa muito legal com ele e o Perlov me disse que, na sociedade da imagem, quando todo mundo realiza a previsão do Andy Warhol, tendo direito a seus 15 minutos de fama, o diferencial do trabalho dele era (é) a consciência crítica – de si e do próprio trabalho. Perlov tinha 74 anos. Ao se despedir, me abraçou e me disse em ídiche (que traduziu depois) – ‘Até os 130’. Era um costume israelense para nos desejar, aos dois, o dobro de sua idade. Confesso que tive uma sensação de vazio quando recebi, num frio telegrama de agência, a notícia de sua morte. Era como se o conhecesse há muito tempo, como se fosse da família. Na verdade, o conheci – pelo cinema, coisa que você também pode fazer. E o que guardo, em definitivo, foi uma coisa que ele me disse. Perlov sobreviveu à 2ª Guerra para descobrir o horror dos campos de extermínio dos nazistas. Sofreu muito, mas nunca cedeu ao desespero. O que me disse, a título confessional, como no Diário, é que se sentia incapaz de se emocionar com a dor e o sofrimento. Entendia-os, claro, sentia compaixão pelos sofredores e pelos derrotados, mas nada o emocionava mais do que ver as pessoas felizes. Uma criança ou um velho rindo eram capazes de levá-lo às lágrimas. Isso dava epitáfio. Ria da dor, mas chorava de felicidade. David Perlov, um grande cineasta.