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Luiz Carlos Merten

01 Janeiro 2010 | 10h48

Acrescentei, ontem, um derradeiro post rapidinho para me despedir de 2009 e desejar um feliz ano para todos nós. Não estava me sentindo muito bem e deixei logo, por volta de 1 h, a nossa festinha de ‘sem ceias’. Cheguei em casa, dei uma zapeada e terminei vendo meu primeiro filme de 2010 e foi ‘Piaf – La Vie en Rose’, com a extraordinária interpretação de Marion Cotillard. O que é aquela mulher? Que coisa mais maravilhosa! O diretor Olivier Dahan havia feito ‘Rios Vermelhos 2’, que tem uma estética meio fossilizada, mas uma cena sempre me impressionou e eu a revi várias vezes na TV paga. É a da corrida daquele padre assassino, que parece um demônio e depois a gente descobre a história da tal droga usada pelos nazistas, para converter seus soldados em super-homens. De alguma forma acho que aquela cena forneceu a chave – o conceito – para a mise-en-scène fluida de ‘Piaf’. Minha cena favorita – o plano sequência em que Edith pede a Marcel que volte de avião, porque ela não aguenta esperar, ele chega, a acorda, Edith diz que vai fazer um café e a câmera a segue pelo apartamento, todo mundo a olha de um jeito estranho, Edith irrita-se, fica agressiva, o movimento da atriz é intensificado, o da câmera a segue também, até a revelação de que Marcel morreu num acidente aéreo; Edith se desespera, vaga pela casa quebrando tudo até irromper no palco, a casa vira um teatro e ela canta ‘Hino ao Amor’. Escrevi aqui o texto contínuo para tentar reproduzir para vocês a vertigem do movimento. Deus, que aquilo é lindo. Mais que lindo, é forte! E a atriz… Estou indo dia 14 para Paris, para o rendez-vous do cinema francês. Um dos filmes que integram a programação é o novo de Karim Dridi, ‘Le Dernier Vol’, e eu estava cheio de expectativa de poder entrevistar Marion Cotillard. Gostei tanto dela em ‘Inimigos Públicos’, de Michael Mann. Recebi o comunicado da Unifrance de que poderei falar com o diretor Dridi e o ator Guillaume Canet, mas não com Mlle. Cotillard, que estará em Los Angeles, no Globo de Ouro. Mlle. Cotillard. Lembro-me dela na coletiva de ‘Piaf’ em Berlim e, depois, no Oscar. Na primeira, estava lá. No Oscar, vi pela TV. É uma mulher linda, charmosa, elegante. Na maior parte do tempo, aparece encurvada, para fazer uma mulher fisicamente menor, em ‘Piaf’. Em alguns momentos, a dor, o sofrimento fazem dela um bicho, com a expressão abestalhada. Gosto muito, também, da cena da entrevista na praia, quando a jornalista pergunta o que Piaf diria a uma mulher. ‘Ame!’ E a um homem? ‘Ame!’ A uma criança? ‘Ame!’ A vida de Edith Piaf não foi nem de longe ‘rósea’, como sugere o título do filme, ‘La Vie en Rose’. Poderia ser ‘A Mulher Que Amou Demais’, mas já existe um filme com esse título. Não tenho mais registro físico de Edith Piaf, a própria. Quando penso nela, quem me vem é a sublime Marion Cotillard fazendo o papel.