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Luiz Carlos Merten

02 Outubro 2010 | 12h19

RIO – Tenho feito essas entrevistas maravilhosas, ou que assim me parecem, como a que realizei com Graciela Borges e que foi publicada no ‘Caderno 2’ de quinta-feira. Daqui a pouco acontece a feijoada do Festival do Rio, que é sempre um momento de confraternização, ao qual acorre todo mundo que é ‘in’ na cidade. Os argentinos estão todos aqui – Pablo Trapero, Daniel Burman etc. A turma de ‘Rio Sex Comedy’, Charlotte Rampling, Irène Jacob, Bill Pullman. Tenho de confessar que achei o filme de Jonathan Nossiter bem decepcionante. O olhar estrangeiro do autor busca ser libertário, mas não senti isso, embora ‘Rio Comedy’ tenha algumas observações interessantes. Entrevistei Ana Paula Arósio e Murilo Rosa, a dupla de ‘Como Esquecer’, de Malu De Martino. Contei a Ana Paula como me lembrei de Walter Hugo Khouri, enquanto assistia ao filme, que não tem nada a ver com o universo do mais paulista dos autores, vale destacar. Há um clima de atração mútua, Kate Hansen e Lilian Lemmertz se entregam àqueles jogos em ‘As Deusas’, a dominadora Odete Lara se impõe à fragilizada Norman Bengell de ‘Noite Vazia’, mas em ambos os casos o homossexualismo feminino é de superfície, quase um plus a mais para excitar os homens no cinema de Khouri. Ele , que a lançou, ainda garota, percebeu que Ana Paula tinha vida interior e iria longe. Me disse isso. Khouri teria gostado de ver a melancolia que ela imprime à sua personagem, aquela Júlia que curte a fossa e chega a ser irritante por isso. Ana Paula vai fundo na personagem. Aparece desglamourizada, tem uma cena ousada de masturbação no banho. E, ali, conversando comigo no Pavilhão do festival, era a Ana Paula Arósio de sempre. Linda, com aqueles olhos, aquele sorriso. Confessou que, se foi difícil entrar na personagem, também foi difícil sair. Nos primeiros dias pós-filmagem, a equipe lhe fazia falta, os amigos, a própria dor de Júlia, que leva ao liomite o sofrimento pela rejeição da ex-namorada. O Festival do Rio tem mostrado muitos filmes sobre relacionamentos, e eu gostei bastante de ‘Mine Vaganti’, de Ferzan Ozpetek, com seus amores hetero, homos, mas principamente impossíveis. Existem os gays, mas me encantou a tristeza daquelas mulheres. A matriarca, a avó que a vida inteira amou o irmão do marido; a garota complicada que se apaixona pelo gay e o observa, à distância, na sua intimidade com o namorado. Apesar disso, Ozpetek termina o filme numa grande confraternização, misturando tempos, passado e presente. ‘Gracias a la vida’, como ele gosta de fazer. Tenho curtido intensamente esse festival que começa a chegar ao fim, embora ainda nos reserve grandes emoções. Bruno Dumont ainda não chegou para sua master class e eu desisti de ver ‘Somewhere’, à zero hora de hoje, porque estava impactado pelo ‘Senhor do Labirinto’ e não quis misturar as coisas. Havia visto o filme de Geraldo Motta numa cópia de trabalho. É impressionante. Ontem, na cópia definitiva, com a trilha de Egberto Gismonti, não é só uma experiência sensorial – com aquela fotografia de Kátia Coelho e a cenografia e a direção de arte que ajudam a recriar na tela o mundo particular de Artur Bispo do Brasil. Tudo isso é muito bom, mas Ronaldo não teria chegado lá sem a interpretação visceral do Bauraqui. Ainda falta ver ‘Boca do Lixo’, hoje à noite, mas, para mim, a Première Brasil deste ano resume-se a dois filmes – ‘Luz nas Trevas’ e ‘Senhor do Labirinto’. Amei a citação, de quem mesmo?, ‘A fantasia não é uma forma de fugir da realidade, mas um meio de entendê-la’. E o Gismonti! Que que é aquilo? Puta trilha.

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