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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2007 | 10h04

No post anterior, sobre Licença para Casar, falei do happy end de Mandy Moore e John Krasinski, quando o padre Robin Williams sacramenta que eles estão preparados para viver felizes para sempre. Lembrei-me do post que redigi outro dia, sobre meu querido Richard Brooks, citando um de seus grandes filmes, Tempo para Amar, Tempo para Esquecer (Happy Ending), que desmontava justamente essa instituição do cinema de Hollywood, o happy end. Só porque as pessoas se acertam no final dos filmes não significa que serão felizes e a propósito, estou me lembrando de Russ Meyer, ex-fotógrafo de Playboy e diretor de nudies que fez história duplamente, quando The Immortal Mr. Tears foi o primeiro filme pornográfico a lucrar mais de US$ 1 milhão e, na seqüência, quando foi contratado – um diretor pornô! –, pela puritana Fox, para fazer De Volta ao Vale das Bonecas. Russ Meyer emendou sua continuação da horrorosa saga adaptada do best seller de Jacqueline Susann com Sete Minutos e é sobre este que quero falar. Talvez hoje o filme baseado no livro de Irving Wallace esteja defasado em suas ousadias, mas na época era muito divertido, ora se era. Sete Minutos conta a história de um julgamento envolvendo pornografia. O xis da questão, os sete minutos do título, refere-se ao tempo que uma mulher necessita para ter orgasmo e o legal do filme é que a safadeza vinha envolvida no jargão jurídico, com direito a cientista e tudo no tribunal, para esclarecer o júri (e o espectador). A trama refere-se a um assassinato e os sete minutos são importantes porque podem esclarecer se o acusado teve tempo de matar ou não. Na cena-chave, aparece a mulher que detém o segredo, a autora que se escondia por trás de pseudônimo para escrever pornografia e ela é interpretada por Yvonne De Carlo, da Família Monstro – atriz de clásssicos de aventuras de Raoul Walsh –, no papel de sua vida. Yvonne faz um discurso que desmonta justamente a noção do happy end. As coisas não terminam necessariamente bem porque a porta se fecha sobre o casal e aparecem as palavras mágicas, The End. Na trama do filme, fechada a porta, o sujeito revela-se impotente. Há 36 anos, tudo isso ainda era inédito numa produção A de uma Major. Orgasmo, esperma, ereção, impotência. Santo Russ Meyer! Não, quer dizer, santo ele não era. Russ adorava mulheres de seios fartos – Jayne Mansfield devia ser seu objeto de desejo –, mas pelo visto não era só um diretor folclórico. Numa dessas passagenas por Paris, depois de Berlim ou Cannes, descobri que ele estava sendo homenageado com uma retrospectiva e os críticos falavam muito bem de sua ‘coragem’. Jean Tulard – fui ao dicionário dele, para checar – diz que nada define melhor a obsessão autoral de RM do que o título de um de seus filmes – Up! Para cima!

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