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Cultura » Para arrematar a crítica da crítica

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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2006 | 14h11

O pobre leitor que me acompanha até aqui e talvez já não agüente mais esta crítica da crítica, vai ter um pouco de paciência. Fui salvo ontem pelo gongo. Achei uma perda de tempo tão grande o meu esforço de ir a Brasília, voltando à noite, que cheguei no aeroporto e comecei a postar um texto que estava saindo bem irado. Felizmente, meu tempo se esgotou antes que eu salvasse o post, começou o embarque e eu desisti. Por conta da chuva em São Paulo, o avião ficou quase uma hora parado na pista, em Brasília. Depois, tivemos um vôo tão turbulento que eu comecei a relativizar tudo, face à precariedade da vida que era aquele avião jogando para tudo que é lado. Havia comprado na ida um livro para ler. Ia encarar um best seller qualquer, mas aí comprei os Contos do Machado de Assis, edição da L&PM. Li de um jato, antes que o avião aterrissasse no aeroporto JK. Na volta, para superar o enjôo, dei-me de novo a Machado e reli Missa do Galo, A Cartomante, O Espelho, Pai contra Mãe (que foi a base do filme Quanto Vale ou É por Quilo, de Sérgio Bianchi) e o caso da Vara. Machado é tão genial de ler nas entrelinhas, há um rigor tão grande do texto e uma inteligência tão aguda nas observações (e na ambigüidade) que eu me reconciliei com a vida. O avião jogava, parecia que ia cair e eu fiquei viajando nas minhas lembranças. Lembrei do Dustin Hoffman, que me disse que veio de uma família pobre, iletrada e por isso mesmo ele foi tão marcado pelo primeiro livro que leu (Moby Dick, do Melville). Minha primeira leitura ‘consciente’ foi Tarzan, o Rei da Selva e eu não terminei enquanto não li todo Edgar Rice Burroughs da Coleção Terramarear da Melhoramentos (e, depois, o Rafael Sabatini, o Emilio Salgari, o Júlio Verne e o H.G. Wells). Foram minhas primeiras leituras e deve ser por isso que até hoje eu me sinto tão ligado à aventura, à fantasia, mesmo que tenha lido depois todos aqueles grandes que você sabe (Machado, Guimarães Rosa, Stendhal, Dostoievski, Proust, Mann, Hemingway, Fitzgerald, etc). Não discrimino entre Abbas Kiarostami e Peter Jackson. A minha maneira de ver cinema não me obriga a ter de escolher entre Dez, filme-ensaio genial, e O Senhor dos Anéis, que me parece a súmula do cinemão. Na volta da Grécia, li no avião O Dom da Amizade, sobre a ligação e as disputas entre J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis e a forma como ambos se influenciaram na criação da Terra-Média e de Nárnia. Não sabia, e achei muito legal, que o Auden, grande crítico, tenha ido à luta em defesa de Tolkien quando foi publicado o terceiro volume da série dos Anéis, O Retorno do Rei. Auden enfrentava seus pares. A aventura e a fantasia não são gêneros menores, dizia para os que tentavam minimizar o monumento de Tolkien (que era um filólogo, além de tudo!). Sempre acreditei nisso. Amo Visconti, que está lá no topo do meu panteão, mas também amo westerns que outras pessoas talvez ignorem. É bom que seja assim. É o que nos diferencia. Sempre escrevo que o filme é do diretor até o momento em que o conclui. Depois, somos co-autores, tiramos (ou fazemos) o nosso filme dentro do dele. Sou o cara que mais entrevista diretores, dentro e fora do País, mas não encaro o que dizem como um manual sobre como ver os filmes deles. Losey, Kazan, Hitchcock, Bergman falando dos filmes, complementam o prazer da obra filmada com o de suas reflexões. É maravilhoso ver Hitchcock conter o arroubo de Truffaut, tiete mais do que crítico, em Hitchcock Truffaut, mas existem diretores que dizem uma coisa e eu não vejo nos filmes. E existe esse diretor de que gosto muito, o Gordon Douglas, um cara que construiu uma obra autoral, mas nunca foi reconhecido como autor, dentro da indústria de Hollywood, na qual era considerado somente um ‘artesão’. Nunca li uma entrevista do Gordon Douglas, nem sei se ele deu alguma na vida, falando seriamente sobre cinema, com quem quer que seja. Tentei até uma vez, via o American Film Institute, um contato com a família, com o filho dele, também ligado a cinema, mas não deu em nada. Ao contrário de outros grandes diretores, não tenho a intenção do Gordon Douglas para comparar com o resultado de seus maiores filmes (Rio Conchos, Rio Conchos, Rio Conchos). O que eu retiro do cinema de Gordon Douglas não sai de nenhum manual. É uma construção minha, a partir do que ele fez e é assim que eu vejo o cinema, o papel do crítico e do espectador.