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Para amantes de cinema

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2006 | 12h51

O Diabo Veste Prada pode ser uma grande atração (e uma grande diversão) para o público em geral, mas cinéfilo que se preze tem endereço certo nesta sexta-feira, em São Paulo. Tem de ir aos cinemas que apresentam Amantes Constantes, de Philippe Garrel. Embora tenha mais de 20 filmes no currículo, Garrel é um daqueles autores franceses pouco conhecidos no Brasil pelo simples fato de que seus filmes não chegam aqui. Para muita gente, Amantes Constantes terá o valor de uma descoberta.
Garrel volta-se para o próprio passado e lembra sua participação no célebre Maio de 68. Barricada, drogas, sexo livre. É o começo do filme, que prossegue com a ressaca pós-Maio de 68. O que ocorreu com aquela geração que se pretendia revolucionária? Nesta parte,. Amantes Constantes vira uma deslumbrante história de amor. É um filme denso, rico, provocador. Dura três horas e, com certeza, muitos espectadores vão achá-lo longo, até porque Garrel tem uma definição própria do cinema – no escurinho da sala, ele acha que o espectador tem de flutuar. Seu cinema tem essa proposta. Cenas descontínuas, que parecem não se concatenar, mas concatenam. Não é um diretor que se ocupa da história. O que ocorre nas entrelinhas, a aparente falta de motivação dos personagens é o seu forte. É possível fazer uma ponte entre Amantes Constante e o mais narrativo Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que também tratava de Maio de 68. O ator que fazia o irmão incestuoso no filme de Bertolucci é o mesmo de Amantes Constantes, Louis Garrel, filho do diretor. E Philippe Garrel põe seu pai, Maurice Garrel, na cena em família. É mais do que simplesmente curioso. Um grande autor que se projeta, na tela, no próprio filho, fazendo dele um belo meio tenebroso, não é o menor dos mistérios de Amantes Constantes.