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Cultura » Paolo, o Taviani prevenido

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Luiz Carlos Merten

26 Setembro 2008 | 18h23

RIO – Soube que em São Paulo choveu bastante, mas vocês precisavam ver o que foi o Rio, na manhã de hoje. A área da Central da Cidadania do Betinho, transformada em QG do festival, depois que o prefeito não liberou a praia de Copacabana para a já tradicional tenda, ficou toda alagada, uma coisa horrível. Mas o QG… O prédio é maravilhoso e o planejamento interno, a divisão dos ambientes – sala de credenciamento, de imprensa, bar, áreas de lazer, para seminários etc -, não é só obra de arquiteto, mas é obra de arquiteto de bom-gosto. E isso que tudo foi feito na economia, porque o festival não está esbanjando dinheiro. Foi lá que entrevistei Paolo Taviani, que está aqui para a homenagem que o festival presta não só a ele, mas ao fratello Vittorio, que não pôde vir. Conversamos sobre as novas tendências do cinema italiano, sobre o novo filme deles, ‘La Masseria delle Allondole’, que me tocou muito mas diversos coleguinhas acham ‘melodramático’, e finalmente sobre a própria dupla, como precursora de todos esses irmãos que hoje fazem filmes ao redor do mundo – Wachowski, Hughes, Dardenne etc. Paolo é muito simpático e me disse que Vittorio e ele não foram precursores coisas nenhuma, que apenas seguiram os Lumiére, que, afinal de contas, inventaram esse negócio (o cinema). Ponto para ele. A retrospectiva está sendo inaugurada hoje com ‘Os Fora-da-Lei do Matrimônio’, comédia episódica, dos anos 60, na linha de ‘Os Monstros’. Paolo esculhambou seu filme e disse que é o único, em toda a carreira dele e do irmão, que nasceu de uma encomenda. Foi um tema imposto, um roteiro no qual não acreditavam, mas que aceitaram dirigir. Depois da aclamação crítica de ‘Un Uomo da Brucciare’, com Gian-Maria Volontè, Vittorio e Paolo se achavam acima do bem e do mal. Acreditaram, ingenuamente, que iam dar a volta por cima do roteiro. Quebraram a cara e pagaram pela soberba – ele reconhece que ‘Os Fora-da-Lei’ é uma porcaria, apesar de um ou outro episódio interessante (como o de Annie Girardot). Falamos bastante de ‘Pai Patrão’, acrescentei algum comentário sobre ‘A Noite de São Lourenço’, que integrou, aí em São Paulo, a retrospectiva do cinema italiano comemorativa dos 40 anos de ‘Veja’, e sobre ‘Kaos’, claro, que eu amo (especialmente os episódios do filho bastardo e do lobisomem). Uma surpresa foi quando o próprio Paolo Taviani revelou que tem um carinho todo especial por um filme que não fez muito sucesso, de público nem de crítica. Ele chegou a ironizar. Como pai que acha que seu filho foi injustamente enjeitado, Paolo ama ‘San Michele Aveva Un Galolo’, com Giulio Brogi. E já que falamos de ator, quero acrescentar. Comentando ‘Il Divo’, de Paolo Sorrentino, e ‘Gomorra’, de Matteo Garrone, que estão aqui no Festival do Rio e dificilmente não estarão na Mostra de São Paulo, perguntei o que Paolo achava do extraordinário Toni Servillo, ator-fetiche de Sorrentino (em ‘As Conseqüências do Amor’ e ‘O Amigo de Família’). Sua resposta – ‘Grandissimo!’ Assino embaixo, e como sou exagerado arrisco que Servillo seja hoje o maior ator do mundo, mas ele não vai ser indicado para o Oscar. Querendo fazer gracinha, observei, na despedida, que Paolo Taviani estava de capote, bem de inverno. Perguntei se ele imaginava que estaria usando aquele pesado casaco no Rio, na primavera. Ele disse que ninguém chega a ser um bom cineasta se não for prevenido. Fica o conselho.

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