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Pan no séquito de Dionísio

Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2010 | 12h40

Não tive tempo ontem de postar mais nada. A coletiva da Mostra terminou quase meio-dia, chovia na hora da saída e, depois de resolver alguns problemas, fui almoçar com minha filha e genro. A tarde passou voando e, quando vi, já era hora de ir ao teatro. Sorry, mas a vida continua e não é por haver uma Mostra que vou deixar de ver outras coisas que me interessam. Fui ver ontem ‘As Três Velhas’ no Centro Cultural Banco do Brasil. Fomos em excursão – Gabriel Villela, Dib Carneiro Neto e eu. Uma das três velhas é criada por Pascoal da Conceição, que teve aquela participação tão brilhante, fechando a série de monólogos que compõem a peça (vencedora do Shell) do Dib. ‘Salmo 91’ baseia-se em ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varela. Nunca vou esquecer a forma como Pascoal ‘cospe’ aquele texto. Tudo bem, Pascoal é um senhor ator, mas Gabriel é f…, principalmente no rigor da palavra. Ouso dizer que diretores importantes do teatro brasileiro teriam o que aprender com ele em matéria de direção de atores. No final de ‘As Três Velhas’, houve uma romaria ao palco do CCBB, onde estava, imponente na sua cadeira de rodas, Maria Alice Vergueiro. Lá estava também, tenho de acrescentar, o Marcus Mello, da revista ‘Teorema’, de Porto Alegre, e eu confesso que me emocionei vendo o que me pareceu a devoção dele pela Maria Alice. Marcos dava a impressão de querer beber suas palavras. Gosto muito quando vejo um grande diretor, como Gabriel, saudar seus pares. O Antunes de ‘Policarpo Quaresma’, a Maria de ‘As Três Velhas’. Ele admitiu que chorou e riu como há muito tempo não fazia numa peça de teatro. É um texto de Alejandro Jodorowsky, um dos criadores do teatro pánico, com Fernando Arrabal. No programa da peça, há um texto do próprio Jodorowsky, propondo o diálogo de sua peça com a clássica ‘As Criadas’, de Jean Gênet. As criadas são serviçais, as velhas são aristocratas decadentes. O texto, embora breve – a montagem toda dura cerca de 70 minutos –, é de uma riqueza dramatúrgica extraordinária, misturando melodrama, farsa, tragédia, o todo envolucrado numa proposta de distanciamento brechtiano que incorpora a antrofopogia e culmina numa carnavalização que levantou toda a plateia. Criou-se uma euforia enquanto aqueles três cantavam que eram ‘putas’. Ouvimos de Pascoal e de Luciano Chirolli, que faz sua ‘irmã’, que houve dias em que a plateia do CCBB reagia indignada às transgressões da peça. É a história de duas irmãs, as tais aristocratas decadentes, que compartilham sua miséria com a criada. O texto é rico em revelações – a criada que… (vejam para saber do que se trata), o pai incestuoso, que violentava as filhas e elas fizeram dez abortos cada uma (mas é a peça do processo eleitoral! Todo o segundo turno está passando pelo palco do CCBB). Maria Alice, veterana transgressora, radicaliza. O ritual do teatro, o cerimonial pagão da oferenda. Alguém lembra, não sei a própria atriz/diretora/encenadora, no programa, que Pan integrava o séquito de Dionísio. Ah, os deuses do teatro. Pascoal fica de quatro ao subir no palco, depois de ter sido ‘currada’ numa festa (a personagem, claro) – e ele mostra o c… cabeludo por um rasgão no vestido. Que Linda Lovelace, que nada. Luciano Chirolli mostra o que é uma garganta profunda ao engolir, literalmente um pênis monumental, porque a falocracia da sociedade patriarcal é um dos temas de ‘As Três Criadas’. Chirolli faz uma coisa que nunca vi. Ele é, simultaneamente, o pai que violenta e a filha que é penetrada e, na dinâmica dos dois movimentos simultâneos, ele/ela parece desfalecer como quem atinge um grande orgasmo. A própria Maria Alice, eterna transgressora, depois de se reinventar dando aquele tapa na pantera, mostra seus seios fellinianos onde as ‘filhas’ – xiiii, entreguei – terminam por mamar. Com grande inteligência, Maria Alice incluiu o You Tube, onde virou a maior celebridade, ao desfecho da peça. É, segundo ela própria, a única ‘mudança’ no texto. Em Jodorowsky, era uma filmagem, o que é compreensível, posto que ele próprio, além de dramaturgo, romancista e quadrinhista, é diretor de cinema. (Sei que tem gente que não gosta, mas amo ‘Santa Sangre’/Santo Sangue). Fiquei chapado vendo ‘As Três Velhas’. A temporada no CCBB termina hoje. Em janeiro, a peça desembarca no Rio, no Teatro de Marieta Severo e Andreia Beltrão. Cariocas, preparem-se!