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Luiz Carlos Merten

05 Março 2012 | 11h53

Devo uma a meu amigo Dib Carneiro. Foi ele quem me arrastou para ver ‘Palácio do Fim’, no Sesc Consolação. A peça de Judith Thompson tem direção de José Wilker. Havia gostado da direção dele em ‘A Cabra’. E vamos! Sabia apenas que o texto da peça era a Guerra do Iraque. Três monólogos, baseados em histórias reais. Não conheço o texto, e o Wilker não estava lá para me elucidar, mas algo me diz que os três monólogos – das personagens de Camila Morgado, Vera Holtz e Antônio Petrim – não devem de articular daquele jeito e os cortes, a ‘montagem das cenas’, como no cinema, é invenção do diretor. Custei um pouco a entrar no clima e até dei uma ‘pescadinha’. Cochilei, por que não? E aí, um grito de Camila Morgado me depertou e a montagem me levou numa viagem louca, num verdadeiro tobogã de emoções. A garota que para ser aceita pelos colegas militares tem de ser mais durona que eles, o velho que calou e agora leva às últimas consequências a necessidade de expiação, verbalizando o horror, e a mulher iraquiana que conheceu a barbárie no centro de tortura de Saddam Hussein, o ‘palácio’ do título. Judith Thompson coloca todo mundo no mesmo balaio – Saddam, George W. Bush, os inocentes soldados norte-americanos que se revelam monstros, os torturadores do regime iraquiano. Michael Moore já havia exposto os bastidores da Guerra do Iraque, os interesses sórdidos, a malversação do patriotismo por Bush Jr. e sua camarilha em ‘Fahrenheit 11 de Setembro’, mas Moore é aquilo. Autocentrado, manipulador. Nem por isso o que mostra deixa de ser documentado (documentário). A cena em que o assessor de Bush ‘vende’ a intervenção do Iraque para invesatidores e promete que a reconstrução do país dará dinheiro para todos é uma coisa tão… fdp que, se houvesse um mínimo de ética, alguém – o papa? o secretário geral da ONU? – parava um camburão lá na frente e prendia todos aqueles caras. Mas, não, é o mundo atual e quem é contra está por fora. Não viram o Putin? Ganhou a eleição na Rússia. Vi agora pela manhã as imagens dele chegando à Praça Vermelha para seu discurso de vencedor. Pobres russos! É a cena que completa ‘Minha Felicidade’, de Sergei Loznitsa. De volta a Judith Thompsopn e a Zé Wilker, na hora H, Vera Holtz, cuja personagem perdeu os dois filhos no ‘palácio’, solta um grito, um urro de desespero, uma coisa tão visceral que eu me transportei dentro daquela sala e, de repente, estava ouvindo o pedido de socorro de Peter Lorre em ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, de Fritz Lang – que é um dos grandes gritos de angústia do homem, captados por uma câmera de filmar, ao longo de mais de um século de cinema. Ainda não havia ido ao teatro neste ano, e se fui até esqueci o que vi. Valeu a pena ter ido ao Sesc do Antunes. A peça ainda tem mais um fim de semana, o próximo, mas parece que os ingressos estão esgotados. Vale tentar, mesmo assim.