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Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2006 | 13h37

Pertenço a uma geração que não tinha muito apreço por John Huston. Nos anos 60, embora ele tivesse feito Relíquia Macabra e até ganhado o Oscar por O Tesouro de Sierra Madre, a crítica gaúcha da época (Enéas de Souza, Jefferson Barros, José Onofre) não perdoava a Huston o fato de ele não possuir um estilo, fato que o próprio diretor ironizava, dizendo que não tinha estilo porque preferia adequar seu método narrativo às diferentes histórias que queria contar. Em 1962, Huston fez Freud, Além da Alma e a descoberta da psicanálise enriqueceu bastante seu cinema. Em 1967, virei devoto dele, quando fez Os Pecados de Todos Nós, baseado em Carson McCullers. Nunca tive muita paciência com os filmes ‘sensíveis’ sobre homossexualismo. Sempre preferi a visão punk de cineastas heteros, como o Huston, em Os Pecados, ou Robert Aldrich, em Triângulo Feminino e A Lenda de Lilah Clare. Tenho tido grande prazer descobrindo filmes antigos de Huston, que antes me pareciam meia-boca. Domingo, revi Moulin Rouge, na TV paga. Estava zapeando, o filme havia começado, eu disse para mim mesmo que ia ver um pouquinho, mais um pouquinho e fiquei até o fim. Moulin Rouge, não confundir com o musical do Baz Luhrmann, tem aquela cena bárbara em que Toulouse Lautrec, the little gentleman, como é chamado, diz que a grande arte não precisa ser simples porque a vida também não é simples; e depois a outra em que ele encontra, decaída, La Goulue e reflete sobre aquilo – com a sua arte, ele deu respeitabilidade ao cabaré Moulin Rouge e atirou todas aquelas pessoas (a Goulue, Jane Avril) na sarjeta, porque não havia mais espaço para elas naquele novo mundo de classe média. O filme é de 1953 e Huston já discutia o papel do artista com uma complexidade muito maior do que a dos críticos de revistas como Cahiers du Cinéma, que o desprezavam, na época. Huston venceu a batalha do tempo, e não apenas ele. Quando fez Caminhando com o Amor e a Guerra, os críticos foram duros, vaticinando que não havia futuro para sua filha, Anjelica, que dividia a cena com Assaf Dayan, filho do general israelense Moshe Dayan. Se Anjelica tivesse desistido da carreira, teria nos privado de seu extraordinário talento. Se Sofia Coppola também não tivesse reagido às críticas que recebeu por sua interpretação em O Poderoso Chefão 3, teríamos perdido, não uma atriz, mas uma diretora que já imprimiu sua marca autoral na produção americana recente. Não sei exatamente o que eu quero dizer com isso tudo, mas talvez seja aquela coisa que não me canso de repetir – a crítica erra, eu erro, nós erramos. Nenhuma crítica é defginitiva. É sempre um ponto de vista, por isso gosto tanto de voltar aos mesmos filmes, sem desistir de descobrir os novos. Os grandes filmes envelecem com a gente. Se fechasse os olhos, teria perdido o que um filme como Moulin Rouge, 53 anos depois, ainda tem para oferecer.

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