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Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2008 | 15h20

Tentei acrescentar mais dois posts naquela lan house no subsolo do Shopping Frei Caneca, mas não deu. Não consegui salvar. Preferi almoçar com minha filha Lúcia e agora cá estou eu postando do Centro de São Paulo. Pela manhã bem cedo, antes da coletiva da Mostra, entrevistei no Hotel Renaissance o diretor de ‘Mataram a Irmã Dorothy’. Daniel Junge é jovem, mas, como ele próprio reconhece, não tão jovem quanto parece (tem 39 anos). Os últimos três anos e meio ele passou viajando dos EUA para o Brasil (e vice-versa) para acompanhar o julgamento dos assassinos – e mandantes do crime – da missionária norte-americana abatida a tiros no Pará. Daniel faz documentários que privilegiam o recorte social. O último, anterior, deve agradar a Maria do Rosário Caetano, feminista de carteirinha e mulher do meu colega Luiz Zanin Oricchio, porque é um retrato da ex (ou ela ainda é?) presidenta da Libéria, o que permite ao diretor discutir a questão feminina num continente tão tradicionalmente tribal (e machista) quanto o africano. Sobre ‘Irmã Dorothy’, fiz duas observações para David Junge e ele julgou que eram pertinentes. Me impressionou muito como aquele julgamento no Pará foi um teatro e a outra observação é que o advogado de defesa é um personagem extraordinário. ‘Quite a characther’, concordou comigo David Junge. O cara é um ator nato, tem uma persona forte e é convincente nos seus argumentos, mas está no lado errado (‘in the wrong side’, segundo David). Da entrevista participou Irmã Rebecca, também missionária e amiga de irmã Dorothy. Não me arrisco a reproduzir o que elas me disse em off sobre o que sabe – ou suspeita – dos mandantes do crime porque seria difícil de provar, ia dar processo (com certeza) e, o que é pior, talvez despachassem uns jagunços para matar também irmã Rebecca e a mim. O filme estréia na TV norte-americana no começo do ano. No Brasil, vai para os cinemas, mas antes disso concorre no Festival de Brasília. Pelo menos foi o que me disse o Junge, embora não me lembre de ter visto o título do filme entre as obras anunciadas como integrantes da competição brasiliense. Achei o trabalho do diretor muito interessante. Volto a Maria do Rosário porque ela conduz os debates em Brasília e terá imenso prazer em comandar o de ‘Mataram a Irmã Dorothy’, principalmente se Irmã Rebecca acompanhar o diretor. David Junge viaja hpoje à noite para Washington, onde roda o novo filme sobre portadores do Mal de Parkinson que lutam por reformas na legislação que trata da doença. Junge – David – é do tipo que toma partido, mas é suificientemente jornalístico – como exigem tantos colegas – a ponto de dar voz a gente que não apenas critica a liderança de Irmã Dorothy como até mesmo a odeia (ou odiava). É uma ironia que o projeto de desenvolvimento sustentado – o PDS -, que ela defendia, pareça tanto, como sigla, ao antigo PSD, partido de raposas que representava exatamente o oposto no espectro político brasileiro pré-1964. A situação no Pará é mais tensa do que nunca. O conflito de terra e a luta contra o desmatamento, pela preservação da ‘Rain Forest’, viraram sinônimo de atraso. O outro lado representa o, assim dito, ‘desenvolvimento’ (e f…-se a floresta). O fato de ele, como irmã Dorothy, ser norte-americano, acirra a xenofobia dos que pensam, em proveito próprio, que se trata de uma interferência indevida dos EUA no Brasil (e não importa o fato de a irmã se haver naturalizado brasileira). David Junge diz que é ‘só’ um filmmaker, não um militante político, mas ele fez um filme que fica com a gente – ficou comigo – e atua na consciência de quem não desiste de lutar por um mundo melhor. Ah, sim, para deixar claro do que estamos falando – alguns de vocês vão protestar, remember o post sobre Sarah Palin -, ele se autodefine como ‘apoiador’ de Barack Obama. Toda essa tragédia paraense ocorre na localidade chamada de Esperança (Hope). David Junge, que critica o papel que os EUA desempenham atualmente no mundo, sob George W. Bush, tem esperança de que Obama venha para mudar. Tomara que esteja certo. Oxalá, como ele diz!