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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2011 | 12h22

Meus amigos! Passei mal ontem a tarde toda, com uma ânsia de vômito que quase acabou comigo. O enjoo, consequência da medicação contra pneumonia, persistiu e me impedia de dormir. Só vomitei lá pelas 4 da manhã, o que me deu um alívio, finalmente. Ouso dizer que pode ter aumentado a sensação de mareado o fato de haver sintonizado ontem no canal Space para uma overdose de 007. Vi vários filmes da série em sequência, interpretados por Sean Connery (2), Roger Moore e Pierce Brosnan (2). Me ligo nas histórias, curto a safadeza, mas cada vez mais me dou conta de que os filmes são invariavelmente ruins. O melhor contiunuja sendo ‘Com 007 Só Se Vive Duas Vezes’, a aventura japonesa de James Bond, com direção de Lewis Gilbert, mas os efeitos são toscos e o filme precisaria ser refeito para manter a eficiência. Mas quero dizer que tive um prazer muito grande na terça à noite, assistindo ao díptico que Yves Robert adaptou de Marcel Pagnol. Havia comprado a caixa da Versátil para dar de presente. Os dois filmes estão num só disco (Blu Ray). ‘A Glória de Meu Pai’ e ‘O Castelo de Minha Mãe’. Não são o tipo de filme aque agradem aos críticos. Os franceses têm uma definição para essas imagens elaboradas – D’Épinal. Robert imprime sentimento ao relato e o final de ‘O Castelo de Minha Mãe’, quando Pagnol,  já famoso, volta à sede da sua produtora na Provence e descobre o castelo é de uma beleza que me desmontou. Todos aqueles mortos… Tudo bem. Estou fragilizado, mas não vou creditar só a isso a emoção que senti. Não sei se falo de Robert ou de Pagnol. Conheço pouco o dublê de escritor, integrante da Academia Francesa, e cineasta. Ou melhor, conheço bem o escritor, mas não tanto o cineasta, Pagnol foi pioneiro na discussão do cinema como forma expressão. Criou uma revista ‘Cahiers’, acho que des Films, na qual investia contra o cinema mudo. Faz sentido. Ao tornar-se diretor, ele levou para o cinema suas amadas montanhas da Provence – que o pequeno Marcel descobre no díptico de Robert -, mas também, e principalmente, o regionalismo da linguagem provençal. Seu cinema deve muito a grandes atores, à frente o mítico Raimu, mas eu tenho de admitir que nunca vi (por que?) o célebre ‘A Mulher do Padeiro’, La Femme du Boulanger, pelo qual a crítica Pauline Kael era louca. A restrição que mais se faz a Pagnol é de, quando lhe faltaram seus atores fetiches, ele entrou em decadência, lá pelos (19)50. Yves Robert começou como ator e, quando fez ‘A Guerra dos Botões’, a versão de 1961, já tinha um certo currículo como diretor. Ele desenvolveu sua carreira à margem da nouvelle vague, mas nunca chegou a ser um solitário da estatura de Jacques Tati. Robert forneceu sucessos a Hollywood – ‘O Louro Alto, de Sapato Preto’ virou comédia com Tom Hanks e ‘O Doce Perfume do Adultério’ deu origem a ‘Mulher de Vermelho’, de Gene Wilder, com Kelly LeBrock. Em 1990, 30 anos depois de ‘La Guerre des Boutons’, que adaptou de Pergaud, Robert se voltou para Pagnol. Robert está vivo? Teria de pesquisar, mas caso esteja deve estar quase centenário, com mais de 90 anos. Não resisto a acrescentar que, em Cannes, a Croisette estava embaideirada com anúncios de uma nova versaão de ‘A Guerra dos Botões’. Eram os anúncios do filme ao lado dos de ‘Tintin’, de Steven Spíelberg, que espero ver no Sony Summer, em Cancún, em julho (mas tenho de me curar antes). Tinha 15, 16 anos quando vi o primeiro ‘Guerra dos Botões’. Carrego o filme comigo até hoje.