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Luiz Carlos Merten

07 Outubro 2006 | 09h41

Quando setembro vier era o título de uma comédia boba que o Robert Mulligan, diretor de resto muito importante, realizou em Roma, no começo dos anos 60, com Rock Hudson e Gina Lollobrigida, mais Bobby Darin e a, na época, mulher dele, Sandra Dee. A nota curiosa ou insólita e que aquela comédia romântica tinha lá, nos créditos, na função de produtor, o nome de Raoul Walsh, um dos mitos fundadores de Hollywood, grande diretor de westerns e filmes de gângsteres. O que um cineasta com esse currículo tinha a ver com o universo da comédia romântica? O próprio Walsh fez suas comédias, mas eram menos românticas (com Mae West, imagine!). Talvez tenha sido uma questão de conveniência. Ele havia feito, em Roma, Ester e o Rei, com Joan Collins. Era interessante para Hollywood ter um diretor veterano supervisionando o trabalho de um novato que filmava longe dos estúdios – pode ter sido isso. Mas a verdade é que todo esse nariz de cera foi para dizer que setembro inicia a melhor temporada do ano para os cinéfilos brasileiros. É quando começa o Festival do Rio, encerrado quinta-feira (e que ainda está na repescagem). Mal voltei para São Paulo e, daqui a pouco, no Unibanco Arteplex, Leon Cakoff decola sua Mostra Internacional de Cinema, que, em 2006, comemora 30 anos. A Mostra começa dia 20, com as atrações que espero poder comentar em seguida. Setembro veio, passou. Outubro traz a Mostra. Fiz duas grandes entrevistas com Leon, para as revistas Cult e Vogue Homem. Ele conta que iniciou a mostra, nos anos 70, porque o Papís vivia sob uma ditadura e ele, como jornalista, acreditava na circulação das idéias. Vivia reclamando da censura, dos distribuidores e exibidores, que não traziam ao Brasil os filmes que ele gostaria de ver e que as pessoas vissem. Leon foi a primeira vz a Cannes, em 1971, e voltei impressionado com os rumos do cinema e o nosso atraso cultural.A Mostra nasceu de um impulso – em vez de reclamar, por que não faço?, ele se perguntou Foi simples, assim, mas claro que a coisa toda foi muito mais complicada. A Mostra começou no Masp, museu no qual Leon assinava a programação de cinema, com a decisiva participação de adidos culturais de embaixadas e consulados, que lhe permitiam usar a mala diplomática para trazer ao País os filmes proibidos. A censura acabou, mas outra forma de censura permanece, 30 anos depois – a econômica. A questão do patrocínio é sempre grave, em qualquer evento. Leon tem tido o apoio da Petrobrás, mas queixa-se do não cumprimento de acordos pelo governo do Estado. Uma coisa é certa. Às vezes, ele até precisa diminuir sua Mostra, adequá-la ao orçamento de que dispõe. O que não dá para imaginar é outubro, sem a Mostra, em São Paulo.