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Cultura » Outro que se vai, agora é Ken Annakin

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Luiz Carlos Merten

24 Abril 2009 | 15h21

Pode ser piada de mau gosto, mas faz parte da rotina do jornal. Volta e meia me pedem para pegar a ‘pá’ e eu já sei que se trata de um necrológio. A pá do coveiro, para enterrar algum artista que morreu… Mal havia largado a pá para enterrar o grande Jack Cardiff – grande como fotógrafo – e já fui requisitado de novo para enterrar o Ken Annakin. Ken quem? Mike Leigh, esse vocês conhecem, com certeza, o definiu como ‘truly great master of susscessful, commercial cinema’. Ken Annakin começou a fazer cinema no fim dos anos 40 e só bem mais tarde eu vi ‘Miranda’, uma espécie de pré-‘Splash, Uma Sereia em Minha Vida’, com Glynis Johns como sereia que sequestra médico casado e só aceita devolvê-lo à terra firme se puder acompanhá-lo. Acho que foi uns dez anos mais tarde que Annakin dirigiu o filme que realmente marcou um diferencial em sua carreira, pelo menos para mim, ‘A Cidadela dos Robinson’, produção da Disney sobre família de náufragos que constrói seu paraíso numa ilha, mas ela é invadida por piratas. John Mills, Dorothy MacGuire, Caroline Munro, James MacArthur formavam a família e o lendário Sessue Hayakawa liderava os piratas. Nunca revi o filme, mas o adorava quando garoto, pois ele preenchia minha necessidade de aventura e o revi várias vezes. Annakin fez depois ‘Esses Homens Maravilhosos com Suas Máquinas Voadoras’, que era bastante divertido, e foi um dos cineastas convocados por Darryl Zanuck para dirigir ‘O Mais Longo dos Dias’, adaptado do livro de Cornelius Ryan sobre o Dia-D. Nunca soube o que, exatamente, Annakin filmou, mas gosto bastante do tom semidocumentário do filme e acho bacana como ‘The Longest Day’ usa três personagens, interpretados por John Wayne, Henry Fonda e Richard Burton, para tecer uma reflexão sobre a guerra. Um a planeja, o soldado-burocrata (Fonda), outra a executa, o soldado-guerreiro (Wayne) e o terceiro (Burton), qual soldado-Hanmlet, se interroga sobre o ser ou não ser na (e da) guerra. Annakin tentou repetir a fórmula de ‘Esses Homens Maravilhosos’ com ‘Os Intrépidos Homens e Seus Calhambeques Maravilhosos’, que não era tão bom, mas tenho um carinho especial por ‘Catástrofe nas Selvas’, título meio esquisito para o ‘Call of the Wild’ de Jack London, que William Wellman havia filmado nos anos 30 (e que se chamou ‘O Grito das Selvas’ no Brasil). Charlton Heston e Michele Mercier, a ‘Angélica’, substituíam Clark Gable e Loretta Young e o filme possuía uma exuberância visual do outro mundo, com aquelas paisagens geladas da Finlândia ou Islândia, sei que era do extremo norte da Europa. Ken Annakin começou a fazer cinema com Carol Reed e foi sempre uma reserva da produção de qualidade made in Hollywood (or England). Devo-lhe bons momentos no escurinho do cinema.