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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2010 | 13h23

Chega na sexta às locadoras o DVD de ‘Trinta Anos Esta Noite’. É mais um lançamento da Lume. Quando surgiu, em 1963, o longa seguiu a trilha habitual dos filmes de Louis Malle. O nome dele era sinônimo de polêmica. O sexo oral de ‘Os Amantes’, a linguagem obscena de ‘Zazie no Metrô’, o suicídio de ‘Trinta Anos’, o incesto de ‘Sopro no Coração’, o colaboracionismo de ‘Lacombe Lucien’, Malle tinha um talento especial para abordar temas espinhosos. Mas nenhum desses filmes provocou tantas discussões quanto ‘Trinta Anos’. Malle não apenas encarava o suicídio, como o fazia baseado no livro de Drieu de La Rochelle, ‘Le Feu Follet’, O Fogo-Fátuo. Drieu, herói francês da 1ª Guerra, aderiu ao nazi-fascismo na 2ª. Talvez, como vários outros intelectuais, ele buscasse em Mussolini e Hitler uma salvação para a crise da Europa, mas é mais certo que o tenha feito movido pelo desejo de autodestruição, para dar aos inimigos mais uma razão para que o odiassem. Na arte e na vida, Drieu de La Rochelle encarou aquele que Albert Camus considerava o único verdadeiro problema filosófico, o suicídio. Drieu matou-se em 1945. Escreveu ‘Le Feu Follet’ para se purgar da culpa por não haver ajudado o amigo Jacques Rigaut, que o precedera no gesto de acabar com a própria vida. O curioso é que, no seu alvorecer, a nouvelle vague não era um movimento político e seus integrantes, cineastas de classe média – só François Truffaut tinha uma origem mais complicada, com o pé na marginalidade –, olhavam mais para o próprio umbigo do que para as implicações sociais do mundo ao redor. Mesmo quando encara a guerra da Argélia em ‘O Pequeno Soldado’, Godard é um anarquista de direita. A radicalização de esquerda só viria nos anos seguintes, com ‘Masculino/Feminino’, sobre os filhos de Marx e da Coca-Cola, e ‘A Chinesa’, que põe na tela o maoísmo que seduzia a intelectualidade francesa na segunda metade dos anos 1960. O curioso a que me referi antes não é bem isso, mas o fato de que, neste quadro, só Malle era considerado de direita, pelo menos no Brasil. Talvez pela origem – filho de industriais (do aço, com certeza, e do açúcar, senão me engano) –, ele não era o típico autor da nova onda e muita gente considerava sua inserção no movimento forçada. Seu interesse por La Rochelle não era apenas suspeito. Transformou-se na justificativa que muita gente necessitava para lhe colar, em definitivo, o rótulo de ‘reacionário’. Devia ter uns 20 anos quando vi ‘30 Anos Esta Noite’ pela primeira vez. O filme não me apanhou, mas logo em seguida veio ‘O Ladrão Aventureiro’, Le Voleur, com Jean-Paul Belmondo, que não apenas iluminou o suicídio de Alain, Maurice Ronet, em ‘30 Anos’, como também me deu outra perspectiva na abordagem do cinema de Malle. Em ‘30 Anos’, acompanhamos as últimas 48 horas desse homem tão amargurado e desiludido que vai se matar. Numa cena decisiva, ele explica ao amigo como a angústia de não conseguir tocar nem ser tocado com sinceridade lhe produz um vazio existencial que não permite a vivência amorosa plena. No ‘Ladrão’, Belmondo também recusa o mundo e poderia se matar, mas ele manifesta seu desgosto mantendo-se ‘voleur’. O mundo só faz sentido quando o personagem escala muros e penetra em mansões burguesas para roubar não importa o quê. Não é o valor material do que rouba que lhe interessa. É a adrenalina. Mas o último plano mostra um Belmondo desvitalizado e cansado, numa palavra, ‘morto’. Ou eu me engano muito ou a fotografia, em preto e branco, impecável, é de Ghislain Cloquet e o elenco tem aquelas mulheres fantásticas – Jeanne Moreau, Alexandra Stewart. Pretendo voltar a ‘30 Anos Esta Noite’. A Lume presta serviço aos cinéfilos, mais uma vez.