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Cultura » Outra noite, há 43 anos

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Luiz Carlos Merten

09 Abril 2010 | 00h53

Estou voltando da abertura do Festival Internacional de Documentários. Havia visto metade de ‘Uma Noite em 67’ para entrevistar os diretores Renato Terra e Ricardo Calil e agora vi o filme inteiro. É ótimo. Já nem falo dos documentários musicais, que se constituem hoje numa importante, mais que interessante, tendência do moderno documentário brasileiro. O melhor é que são filmes, como se diz?, ‘contextualizadores. Falando de artistas e movimentos, os diretores traçam acurados retratos de época que nos ajudam a entender o próprio País. Apresentando seu filme, o co-diretor Calil, hoje na ‘Folha’, mas que foi meu colega no ‘Estado’, disse que 1001 motivos poderiam ser invocados para explicar o por quê do filme, mas que, no limite, ele fez ‘Uma Noite em 67’, sobre a grande final daquele Festival da Record, porque os artistas enfocados (Chico, Caetano, Gil, Edu Lobo e Roberto Carlos) forneceram a trilha sonora de sua vida e, ele tinha certeza, de muitas outras vidas. Calil poderia estar falando por mim. Viajei naquelas imagens. A final daquela noite em 67 ultrapassou, e muito, o aspecto musical. Havia ideologias em jogo, ou em choque. O uso da guitarra elétrica,. por Gil e Caetano, em ‘Domingo no Parque’ e ‘Alegria, Alegria’, provocou a reação dos puristas, que viam no instrumento uma ponta, ou atalho, para a dominação imperialista. Não se pode esquecer que o Brasil vivia sob uma ditadura. Éramos masis sensíveis à ideologização. A guitarra e, portanto, Gil e Caetano eram de direita. Edu Lobo e Marília Medália, em ‘Ponteio’, eram de esquerda. Simples assim. Infelizmente, as coisas eram e continuam sendo complexas e o documentário dá conta dessa complexidade, analisando, na perspectiva de hoje, acontecimentos de, quantos?, 43 anos atrás. ‘Uma Noite em 67’ traz depoimentos preciosos, mas o ue realmente faz a diferença é o material de arquivo da TV Record, a que os diretores tiveram acesso. Viajei naquelas imagens porque em 1967 eu ainda estava em Porto e acompanhei o festival como o revi na noite de ontem – pela TV. Terra e Calil me contaram que tinham 70 horas de material, que resumiram/condensaram para menos de duas. O material foi bem selecionado e montado. O filme é mais do que ‘musical’. É político, ideológico. E eu conseguia me rever aos 22 anos (sou da classe de 45). Creio que o filme tem atrativos para espectadores jovens, mas, para os da minha faixa etária,  creio que poderá ser, como foi para mim, uma experiência visceral. Não sei quando ‘Uma Noite em 67’ passa para o público – a sessão inaugural era para convidados. Talvez hoje, sexta, ou amanhã, ou domingo. Fiquem atentos. Vai valer a pena. Dei-me conta de como eu amava Marília Medália. Lembrei-me de que o primeiro disco que comprei na vida foi com Vinicius, Toquinho e ela. ‘Com um velho calção de banho/E um dia pra vadiar…’ Tarde em Itapuã. Na primeira vez que fui à Bahia, corri a Itapuã. Claro que não havia Vinicius nem Toquinho, muito menos Marília. Me desapontei com a tarde e com,o local. Não tinha nada a ver, claro. A arte tem dessas coisas. Alimenta nossas fantasias e expectativas de um jeito que a realidade muitas vezes não consegue satisfazer. Estou com os versos de ‘Ponteio’ na cabeça – ‘Quem me dera agora/Eu tivesse a viola/pra cantar’. Sempre fui louco pela música de Edu Lobo, pelos versos de Capinan, mas concordo com Sérgio Cabral. Ele conta que votou em ‘Ponteio’ na final e, logo em, seguida, se arrependeu de não haver votado em ‘Domingo no Parque’. É uma das minhas músicas favoritas. E vou contar para vocês, se é que já não contei no blog – para mim, ‘Domingo’ não é bem uma música. É mais um audiovisual, que passa como um curta-metragem. ‘Amanhã não tem feira? É José/ Nâo tem mais construção?É João…’ Vejam, por favor, e depois a gente conversa.

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