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Cultura » Oshima em liquidação

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Luiz Carlos Merten

04 Março 2009 | 15h56

Corri hoje ao Carrefour, em frente ao prédio do Estado, para tirar uma foto que precisava enviar para Cannes, para renovar meu arquivo. Minha foto para credenciamento é tão antiga que eu ainda tinha cabelos e eles eram castanhos, não grisalhos, quase brancos, como hoje. Enquanto esperava a impressão da foto digital, fui dar uma volta no super, para olhar os DVDs. Encontrei, como oferta, ‘Furyo – Em Nome da Honra’, de Nagisa Oshima, por R$ 8 (mais exatamente, R$ 7,90). É incrível, mas o filme liquidado a troco de banana é de 1983, quando o Brasil se redemocratizava, encerrada a longa noite da ditadura. Oshima havia sido um dos alvos preferidos da censura dos militares. A abordagem de sexo e morte de ‘O Império dos Sentidos’ provocou um terremoto nas casernas. Havia coisa pior por vir, mas o País estava mudando quando Oshima adentrou justamente as casernas. ‘Furyo – Merry Christmas Mr. Lawrence’ oferece uma súmula do trabalho do diretor. Aparentemente, é um filme de guerra, que se passa num campo de concentração japonês na ilha de Java, em 1942. A guerra e a violência são intrínsecos ao filme, mas os temas são outros. O sexo como elemento de destruição, os rituais que aproximam/separam duas culturas. Oshima fala de Oriente e Ocidente, de Japão e Inglaterra. Tudo gira em torno da conceitualização da morte. Para os ingleses, importa a vida. Para os japoneses, a vida só importa como preparação para a morte, à qual dará sentido. O filme possui basicamente quatro personagens. Ruichi Sakamoto, como o militar que comanda o campo, e Takeshi Kitano, seu auxiliar. No outro extremo, David Bowie, como o comandante inglês, e Bill Conti, como Mr. Lawrence, o único que fala japonês e, portanto, vira intérprete. Mais do que o idioma, Lawrence vira uma peça decisiva porque ele entende a cabeça de Yonoi, o personagem de Sakamoto. Lembro-me, e espero não estar mentindo, que na época Oshima ressaltava que o homossexualismo não era, mas havia virado um tabu na sociedade japonesa a partir da era Meiji, quando o Japão se militarizou. Uma das primeiras coisas que os militares fizeram foi reprimir esse lado da sexualidade. O livro em que ele se baseou para fazer ‘Furyo’, literalmente ‘Prisioneiro de Guerra’, não faz nenhuma referência a homossexualismo, mas Oshima transformou a relação entre os personagens numa ligação homossexual. Sakamoto e Bowie são deuses que vivem sua história de confronto e paixão sob o olhar de homens comuns, seus comandados, e que são divididos pela guerra. Toda a arquitetura dramática converge para esse beijo que David Bowie dá em Sakamoto, quando ele ameaça matar o chefe dos prisioneiros ingleses e que é uma coisa tão devastadora que destabiliza o herói japonês, implodindo todo um ritual de representação do poder montado entre ambos. Faz tempo que não vejo ‘Furyo’. Aliás, vi o filme na época, umas duas ou três vezes, e depois nunca mais. Guardo duas lembranças fortes – a do beijo, uma cena impactante; e a importância da trilha, à base de sintetizadores e solos de koto, composta por Sakamoto, à frente da sua Yellow Magic Orchestra. Lembro-me de que Oshima cria blocos narrativos, espécie de tableaux vivants que une por meio do escurecimento da imagem. Não me perguntem por que ele cria essa fragmentação. Terei de rever o filme, para (re)descobrir. Claro que comprei o DVD. Sugiro que façam o mesmo. Só como curiosidade, fui ao ‘Dicionário de Cineastas’, de Rubens Eald Filho, e o último filme que ele lista do diretor é de 1999, ‘Tabu’, outra história de desejo masculino (e de homossexualismo, agora entre samurais). O assunto cala fundo no autor. Ele tinha o projeto de fazer ‘Hollywood Zen’, sobre a relação íntima que teriam tido, nos anos 20, o latin lover Rodolfo Valentino e o astro japonês do cinema norte-americano Sessue Hayakawa. Esse último, décadas mais tarde, foi o comandante do campo japonês de ‘A Ponte do Rio Kway’, de David Lean. Se há alguém que poderia nos elucidar se Oshima fez o filme ou, em caso contrário, porque não o fez, é Lúcia Nagib, a quem, aliás, não vejo há muito tempo, desde que foi para Londres. Lúcia tinha acesso a Oshima. Entrevistou-o muitas vezes e conhecia sua cabeça como Mr. Lawrence conhecia a de Yonoi. Entrei nessa de viajar na obra de Nagisa Oshima. Lembro-me que o primeiro filme que vi dele foi ‘O Túmulo do Sol’, no começo dos anos 60, no cine Ópera, em Porto Alegre, quando Oshima era identificado como o arauto da nouvelle vague japonesa. Dez anos mais tarde, ou 15, estava na faculdade de jornalismo quando assisti a ‘O Garoto’ e nenhum outro filme de Oshima me impressionou tanto quanto a história do menino que se joga na frente dos carros para que sua família explore os motoristas. A morte, sempre a morte, no cinema de Oshima, um tema para ele maior do que o próprio sexo, que tratou tantas vezes, e em obras tão polêmicas.