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Cultura » Os westerns existenciais de Monte Hellman

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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2010 | 09h11

Millie Perkins foi a Anne Frank de George Stevens. É curioso que esteja começando este post pelo autor do western clássico ‘Shane’. Stevens acompanhou o Exército norte-americano em seu avanço pela Europa. Documentou a descoberta dos campos de concentração – Martin Scorsese inspirou-se nas imagens desses filmes para recriar o passado que atormenta Leonardo DiCaprio em ‘A Ilha do Medo’. O horror do Holocausto perseguiu Stevens e ele fez ‘O Diário de Anne Frank’ para se purgar. Usou o formato cinemascope para contar uma história intimista e claustrofóbica – um grupo de judeus que se esconde dos nazistas no sótão de uma casa. Stevens com certeza encarou a técnica como um desafio. Cineasta da paisagem – ‘Os Brutos Também Amam’ e ‘Assim Caminha a Humanidade’/Giant –, usou aquele formato, e aquelas lentes, no espaço mais exíguo possível, para criar primeiros planos, campos e contra-campos. Volto a Millie Perkins. O papel marcou e o público não a aceitou em papéis de adolescentes mais, digamos, ‘convencionais’. Como é mesmo que se chamava o filme dela com Elvis Presley, aquele em que ele fazia o transviado que queria ser escritor? ‘The Wild Country’? E em português? Em meados dos anos 1960, Millie fez história em, dois westerns de Monte Hellman, ambos interpretados (e um escrito) por Jack Nicholson. Por que estou falando sobre Millie Perkins? Porque ontem, naquela loja de DVDs na rua ao lado do Teatro Municipal, encontrei os dois westerns de Monte Hellman. ‘A Vingança do Pistoleiro’ (Ride the Whirlwind) e ‘Disparo para Matar’ (The Shooting). Os dois foram feitos simultaneamente no deserto do Utah, anos antes que o local abrigasse a produção de ‘Butch Cassidy’. As paisagens não poderiam ser mais distintas. Três pistoleiros em fuga, confundidos com ladrões, sobem a montanha e encontram lá no alto a cabana desse velho que mora com a filha, é ‘A Vingança’. Uma mulher contrata dois pistoleiros – um deles é Warren Oates – para vingar a morte do marido. Junta-se ao trio um pistoleiro satânico, como o Jack Palance de ‘Shane’. É o outro Jack, o Nicholson, e o filme é ‘Disparo para Matar’ – que Stanley Kubrick viu, com certeza, antes de fazer ‘O Iluminado’. Os dois westerns de Monte Hellman dispõem de excelente reputação na Europa. Nos EUA, são cults. Jack Nicholson co-escreveu o primeiro, o roteiro do segundo é de Adrien Joyce, que também escreveu ‘Cada Um Vive Como Quer’ para Bob Rafelson (e Nicholson). São westerns existenciais. A subida da montanha equivale a uma ascese, embrenhar-se no deserto equivale à busca do sentido da vida. Quando vai ocorrer o duelo inevitável – ‘The Shooting’ –, a dúvida permanece. Por que aquelas pessoas chegaram ali, àquele momento decisivo? Como? Qual será o desdobramento? Jack Nicholson só ia estourar com ‘Sem Destino’ (Easy Rider), de Dennis Hopper, em 1969, mas já tinha carisma e uma personalidade forte nos filmes de Monte Hellman. Millie Perkins é muito interessante – uma falsa frágil. Hellman e Nicholson formaram-se nas usinas de Roger Corman. Como fazer filmes sem dinheiro? Os dois westerns foram rodados a troco de banana. Hellman filmava um ou dois dias um, depois o outro. Jack Nicholson e Millie trafegavam entre ambos. Os códigos não eram os tradicionais do gênero. Iniciava-se a década de ouro dos independentes e da contracultura. ‘Disparo para Matar’, em versão remasterizada, custa míseros R$ 9,90. Reencontrei Jack Nicholson em grande forma, em Nova York, na junket de ‘Como Você Sabe’, mas o novo filme de James L. Brooks, que estreia em 4 de fevereiro, não é bom. Monte Hellman continua marginalizado, mas na ativa. Foi homenageado em Berlim, ‘Cahiers du Cinéma’ dedicou-lhe, não faz muito tempo, um extenso dossiê, reavaliando sua obra e falando no novo filme, que, para (não) variar, é uma produção ínfima (e complicada). Você não precisa ser fã de westerns para curtir a obra cultuada de Monte Hellman, mas se for – melhor.