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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2008 | 12h10

Meu colega Ubiratan Brasil, o Bira, passou cedo pela redação, tomamos o nosso café, e ele se mandou para a sessão de imprensa do Che de Soderbergh, que a Mostra está realizando neste momento. Se estiverem sendo mantidos os horários anunciados, a primeira parte, ‘O Argentino’, já terá terminado e a segunda, ‘O Guerrilheiro’, começa daqui a pouco. Assisti a ‘Che’ em Cannes, achei muita coisa impressionante, mas não morri de amores – acho que ninguém morreu, a recepção foi bastante fria –, mas vai ser um filme bom de falar e a presença de Benicio Del Toro, na apresentação do filme no encerramento da 32ª Mostra, quinta-feira, promete ser o tititi deste ano. Ninguém resiste a Hollywood, mesmo quando finge que sim. Gostaria de fazer algumas indicações sobre programas de hoje. Um deles é o ‘Three Monkeys’, do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, que tive oportunidade de entrevistar, participando de um grupo de jornalistas quando ele foi homenageado pelo Festival de Salônica, há dois anos. Meu primeiro filme de Nuri Bilge Ceylan foi ‘Climats’, que considero superior a ‘Three Monkeys’, mas isso não importa. Vi depois ‘Nuvens de Maio’ e ‘Distante’ e acho que todos eles, em bloco, fazem do cara um autor que me interessa muitíssimo. ‘Three Monkeys’ se inscreve numa vertente desta Mostra, a dos filmes sobre família, que incluem os brasileiros ‘Feliz Natal’ e ‘A Festa da Menina Morta’, o filipino ‘Serbis’, os franceses ‘Horas de Verão’ e ‘Um Conto de Natal’ e o norte-americano ‘O Casamento de Rachel’, para só citar alguns. Num dos últimos dias do Festival de Cannes deste ano, em maio, fui entrevistado pela TV turca, justamente sobre ‘Three Monkeys’. Havia expectativa de que o filme ganhasse a Palma de Ouro etc e tal. Ressaltei o que gostaria que vocês prestassem atenção. Embora seja um drama familiar, sobre segredos de família, desenrolado em boa parte em interiores, ‘Three Monkeys’ usa a pasagem daquele jeito em que Ceylan é mestre. ‘Nuvens de Maio’ não tem esse título por acaso. A luz do filme vai cedendo lugar a um céu, como se diz, plúmbeo, cheio de nuvens carregadas. Numa cena deslumbrante, a mulher debruça-se sobre a grade do cais, frente ao mar, e o céu cinzento parece que vai desabar sobre ela, acentuando sua dor e solidão. O título refere-se à questão da responsabilidade. A família se recusa a encarar os próprios problemas. Reage como os três macacos, que não falam, não ouvem, não vêem. O pior cego é aquele que não quer ver. Nuri Bilge Ceylan sabe como visualizar seus dramas. O cara é poderoso.