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Cultura » Os russos estão chegando

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Luiz Carlos Merten

18 Julho 2007 | 11h18

Começou ontem um ciclo de cinema russo no Centro Cultural São Paulo. A idéia é mostrar a produção do maior estúdio de cinema da antiga URSS, a Mosfilm (não sei por que, já que se trata de um estúdio, mas o nome é sempre referido no feminino). Lênin considerava o cinema a mais importante das artes e Gorbachev, nos anos 80, introduziu no cinema os primeiros sinais evidentes de sua política de abertura e transparência (glasnost), que terminou levando à ruptura do bloco soviético, a partir da queda do muro de Berlim, em 1989. Há quase 90 anos, em outubro de 1917, a Revolução Russa iniciou uma nova era do homem. Mais tarde, o stalinismo sufocou o sonho revolucionário e a URSS virou uma imensa burocracia, mas avaliando a data, me lembro que Walter da Silveira, em seu livro Fronteiras do Cinema, diz, com evidente exagero de cinéfilo, que ela teria valido a pena só por abrigar o gênio de Eisenstein, quando ele fez O Encouraçado Potemkin, em 1925. O primeiro grande estúdio da Rússia pós-revolução surgiu em novembro de 1923, mas o nome Mosfilm só se estabeleceu em 1936. Durante a 2ª Guerra, transferiu-se para Alma-Ata e, no fim de 1943, regressou a Moscou. Quatro anos mais tarde, foi criado o famoso logotipo da Mosfilm, o monumento que representava, de braço erguido, como numa dança, o operário e a trabalhadora do kolkoz. Este logotipo apareceu em milhares de filmes, pois conta-se que, desde suas origens, a Mosfilm deve ter produzido em torno de 3 mil filmes. O ciclo do CCSP dá conta de uma parcela ínfima dessa produção, mas hoje, às 20h30, haverá um encontro/debate com o diretor do estúdio, o crítico e cineasta Karen Georgievich Shakhnazarov, seguido da exibição do filme Nós Somos do Jazz, por ele realizado. A programação privilegia filmes de Tarkovski (Espelho, Stalker e Andrei Rublev) e da grande estrela da casa, por volta de 1960, Tatiana Samoilova (Quando Voam as Cegonhas e Ana Karenina). Acho a proposta do ciclo muito interessante e até gostaria de assistir ao debate, o que não sei se vou conseguir. Iria em busca de elucidação, porque, na minha cabeça, Mosfilm, controlado pelo Estado, liga-se ao que de mais oficial havia no cinema soviético sob Stálin, quando ele instituiu o realismo socialista. Na fase pós-Stálin, exceto por breves períodos (o degelo de Kruschev, que viu surgir Tchoukrai, de A Balada do Soldado; o surgimento de Tarkovski), Mosfilm era sinônimo de filmes acadêmicos, Neste sentido, acho que A Dama do Cachorrinho, de Yosif Kreifitz, e os filmes de Kozintsev (seu Rei Lear, principalmente) tinham mais a cara do estúdio – e o primeiro, na minha lembrança, é maravilhoso -, mas acho oportuno que se discuta o cinema soviético amordaçado por Stálin por meio de autores como Tarkovski e Elem Klimov, de Agonia, até porque foi esse último o homem que Gorbachev apoiou para o cargo de presidente da União de Cineastas da URSS, que foi fundamental no processo de desmonte da burocracia na Mosfilm. Há exatamente 20 anos, o 15º Festival de Moscou, de 6 a 17 de julho de 1987, foi a vitrine definitiva da glasnost – e Elem Klimov foi a figura mais festejada do evento. O ciclo do CCSP, começando justamente em outro 17 de julho, não deve ser mera coincidência, portanto.