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Zhang Yimou, Ang Lee e os novos apocalypses

Luiz Carlos Merten

07 Fevereiro 2017 | 07h53

PARIS – Elaine Guerini me deu o cano ontem à noite, me fazendo esperar na porta do UGC Ciné Cité Les Halles, onde íamos ver A Grande Muralha, do Zhang Yimou, com Matt Damon. Acho que ela queria ver porque tem alguma entrevista, com o Matt, parece. O filme é muito plástico, muito bonito, mas é o ó. Narra uma história sobre a mitologia da grande muralha e de como ela foi construída para conter seres fantásticos. Essas estranhíssimas criaturas, uns orcs de dentes mais afiados, teriam sido criadas pelos deuses como representação da cupidez dos homens e os estrangeiros da trama, o personagem de Matt Damon inclusive, estão lá paras roubar o segredo da pólvora dos chineses. Imagino que a história deva fazer sentido para o público da China, mas confesso que, de decepção em decepção, daqui a pouco não vai sobrar nada do cinema de Zhang Yimou. Um filme grande, hollywoodiasno, cheio de efeitos – mas não um grande filme. Em compensação, fiquei em choque com o outro chinês, Ang Lee. Sempre ouvi falar desde filme mítico, quer dizer, há algum tempo comecei a ouvir falsar desse filme mítico, que ele ia fazer com uma tecnologia inventada – 100 quadros por minutos – para expressar o imaginário de um soldado que volta da guerra e é assombrado pelos fantasmas da experiência no Iraque. Um Dia na Vida de Billy Lynn, título francês, é sobre esse herói americano que participa, com os sobreviventes de seu pelotão, de um tour pelos EUA. A ação concentra-se neste único disa em que Billy Lynn e seus amigos vão fazer uma aparição no Super Bowl, durante um show de Beyoncé. É difícil avaliar o filme esteticamente, porque teria de ser exibido num cinema especialmente equipado – como o antigo Cinerama – e está passando em 2D, mas não deixa de ser o Apocalypse Now de Ang Lee. E é tão derrisório com os mitos da ‘América’ que corre o risco de não agradar a ninguém. No Brasil nem será lançado nos cinemas. Só o seria se tivesse ido para o Oscar, mas não foi. Elaine me disse que vai direto para home video. Sob certos aspectos, o filme parece ter sido feito para expressar a nascente ‘América’ à deriva da era Trump. América, Améreica – tudo vira espetáculo no país que só consegue resolver seus problemas pela violência, como já dizia Arthur Penn. Tenho lido aqui no hotel o The New York Times, o impresso. Vi outro dia uma matéria muito interessante. NOS EUA, o público médio queixa-se de que Hollywood só premia com o Oscar os filmes que ninguém vê. Pois Neste ano Amazon e Netflix estão com muitos concorrentes no segmento on demand. Me pergunto se estarão também no Brasil? Taí uma matéria interessante. Outra é que a decisão do celerado Trump de impedir (re)entrada de cidadãos de sete países islâmicos nos EUA já está repercutindo no Oscar. Asghar Farhadi, indicado para filme estrangeiro por O Apartamento, já disse que não entra com licença especial porque é um insulto para os demais islâmicos. O assuntyo está na ordem do dia, e fervendo.