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Os novos alemães (2)

Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2008 | 21h37

Não conheço toda a obra de Alexander Kluge, mas o experimentalismo de ‘Artistas na Cúpula do Circo: Perplexos’ me deixou siderado quando vi o filme, nos anos 60. A mesma paixão experimentei por ‘A Crônica de Ana Madalena Bach’, de Jean-Marie Straub (e Danielle Huillet) – não conheço outro filme que mostre (que filme) a música daquele jeito e me encanta o que Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’, deixa subentendido como a limitação – o defeito? – da obra-prima de Straub. O filme é gelado e despojado ao extremo. Mas é isso que é fascinante, a música de Bach, que faz a gente falar com Deus, filmada com aquela frieza. Que filme! Gosto também de Daniel Schmid, ‘La Paloma’, cujo romantismo mórbido na descrição dos amores de uma célebre cantora e um aristocrata leva a um desfecho genial num cemitério. Finalmente, Hans Jurgen Syberberg. Não é segredo para ninguém que Visconti é meu ídolo, mas o Ludwig do Syberberg, em formato de oratório, é a coisa mais impressionante do mundo, melhor do que o de Luchino. Vi só um pedacinho, na TV alemã, sem entender nada do que as pessoas falavam, de ‘Karl May’, mas as imagens me deixaram hipnotizado (e eu sempre fui fascinado pelo escritor alemão que situava seus personagens no Velho Oeste dos EUA. Vi toda a série ‘Winnetou’, devo acrescentar). Syberberg foi mais fundo do que qualquer outro autor de sua geração – mesmo Fassbinder – na reflexão sobre os mitos da Alemanha ‘eterna’. Um dos filmes que mais quis ver na minha vida, e nunca consegui, foi o ‘Hitler’ dele, que tem o acréscimo, no título, de ‘Um Filme da Alemanha’. Quem sabe a Mostra um dia não nos resgata o Syberberg? Seu documentário sobre a nora de Wagner, ‘Winifred Wagner e a História da Casa Wahnfried’, parece ser o complemento perfeito de ‘Ludwig, Réquiem para Um Rei Virgem’. Ela fala, Syberberg filma as ruínas da morada de Bayreuth e o resultado é que, mostrando essa depositária da grande arte de Wagner, Syberberg, na verdade – estou acreditando em quem viu o filme – conta uma história do nacional-socialismo. Taí um cara que valeria revisitar, mas seus filmes duram quatro, ou seis, ou sete horas e não são exatamente ‘comerciais’. Quem gostaria de ver? Eu, sim. E vocês?