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Cultura » Os (no plural) westerns de Stevens

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Luiz Carlos Merten

27 Março 2008 | 00h36

Quero só corrigir o que disse o Mário Pereira, no seu comentário sobre o post de Alan Ladd, quando falo de ‘Shane’, o western clássico de George Stevens, dissecado num livro maravilhoso de Paulo Perdigão (claro que li). Ao declarar seu amor por ‘Os Brutos Também Amam’, Mário assinala que foi o único western dirigido por Stevens. Sorry, mas não é verdade. Em 1935, ele havia feito seu primeiro bangue-bangue – ‘Annie Oakley’, que no Brasil se chamou ‘Na Mira do Coração’. Não conheço ninguém que tenha visto, mas as referências não autorizam muita expectativa e muito menos que Stevens voltasse ao gênero para fazer ‘Shane’, com Alan Ladd, nos anos 50. Embora ele tenha feito ‘Gunga Din’, em 1939, e ‘A Vida É Um sonho’ (I Remember Mama), em 1948, a fama de George Stevens repousa basicamente sobre três filmes que ele rodou nos anos 50 – ‘Um Lugar ao Sol’, ‘Shane’ (Os Brutos Também Amam) e ‘Giant’ (Assim Caminha a Humanidade). Eles compõem aquilo que os críticos chamam de ‘americana’. São filmes que expõem o ideário norte-americano, ou que mostram a construção da identidade nacional. Não saberia dizer qual deles é o meu preferido. Acho genial o beijo de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em ‘Um Lugar ao Sol’ – o mais belo do cinema, pelo menos até o de ‘My Blueberry Nights’, de Wong Kar-wai, que deve estrear nos próximos dias. A luta de Alan Ladd e Jack Palance em ‘Shane’ é antológica, como Riata compõe um cenário impressionante em ‘Giant’ (e a cena da festa dos poderosos do petróleo é coisa de gênio). Mas eu tenho de confessar que acho lindo o último George Stevens – ‘Jogo de Paixões’, que foi como chamou aqui ‘The Last Game in Town’. O diretor queria Frank Sinatra, mas teve de fazer seu filme com Warren Beatty, que se envolve com a corista Liz Taylor em Las Vegas. Por um capricho da atriz, que não queria se afastar do marido, Richard Burton, que rodava sei lá que filme na Europa, Stevens fez construir Las Vegas em estúdio, em Paris. A artificialidade do décor (mas Las Vegas já é uma cidade fake), O tema do jogo, a importância do avião no desfecho – tudo remete a ‘o Fundo do Coração’ (One from the Heart), que Francis Ford Coppola fez no começo dos anos 80. Jean Tulard não exagera ao dizer que, com sua trilogia, Stevens esboçou a epopéia cinematográfica dos EUA com a qual sonham todos os realizadores norte-americanos. Isto é tão verdadeiro quanto o fato de que ele já havia feito um western, sim.

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