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Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2009 | 16h16

Quando disse que tive de ‘enterrar’ Donald E. Westlake e Edmund Purdom, quero dizer que redigi os necrológios do escritor e do ator. Purdom veio do teatro inglês, onde surgiu integrando a companhia de Laurence Olivier, e desfrutou de certa popularidade nos anos 50. Não sei por que, mas sempre me pareceu um sub-Brando, embora na verdade talvez fosse um sub-Victor Mature, já que fez poucos filmes contemporâneos e investiu numa carreira com toga e outros uniformes da antiguidade – caiu a trema! – clássica. Purdom foi o protagonista de ‘O Egípcio’ e fez um pequeno papel em ‘Júlio César’, a versão de Mankiewicz, com Louis Calhern e Marlon Brando. Não mereceu mais do que uma breve. Westlake teve direito a uma matéria maior, embora não tanto quanto talvez merecesse por seus centro e tantos livros que lhe valeram o título de mestre, outorgado pela Associação de Escritores de Mistério dos EUA. Ele também ganhou três vezes o prêmio Edgar – o Oscar do policial – e concorreu ao prêmio da Academia de Hollywood pelo roteiro de ‘Os Imorais’, o ótimo filme de Stephen Frears que coloca John Cusack às voltas com duas predadoras interpretadas por Anjelica Huston (sua mãe) e Annette Bening (a amante). Westlake morreu no México, aos 75 anos, quando deixava o hotel com a mulher para ir a uma festa de réveillon. Isso sim é que é ironia do destino! Eles escreveu quase sempre sob pseudônimo, usando váerios, mas o mais famoso foi o de Richard Stark, com que assinou o relato que inspirou ‘À Queima-Roupa’, de John Boorman, com Lee Marvin, um dos grandes thrillers dos anos 60. Boorman incorporou inovações de linguagem, no manuseio do tempo e do espaço, que o francês Alain Resnais vinha desenvolvendo desde ‘Hiroshima, Meu Amor’ (e até antes). Revi o filme não faz muito tempo e me pareceu inteiraço, ao contrário da refilmagem de Brian Helgeland, ‘O Troco’, que tem um lado sórdido e cafajeste interessante, mas que o grande co-roteirista de ‘Los Angeles – Cidade Proibida’ jura que foi estragado pelo astro (e produtor) Mel Gibson na montagem. O próprio Donald E. Westlake dizia que 15 de seus livros foram adaptados para o cinema. Estou falando de dois ou três. Uma pesquisa mais acurada talvez revelasse outras jóias. Seus livros recentes, assinados como Richard Stark, tratam quase todos de um psicopata chamado ‘Parker’. Sua explicação para usar pseudônimos era muito interessante – ele dizia que não ficava bem para a reputação de um autor publicar tantos livros no mesmo ano. Tinha humor, o Westlake (ou Stark). Talvez tenha sido como suprema prova de humor que tenha ido, de enfarte, na virada do ano.