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Cultura » Os ‘meus’ russos

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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2009 | 20h07

Estou no mailing de Maria do Rosário Caetano e, como tal, recebo seu Almanaque de Cinema, que em geral nem olho. Não é nenhum parti-pris copntra ela, que fique caro. Maria do Rosário sabe disso e, quando quer muito que eu leia alguma coisa, pede a amigos comuns que me chamem a atenção. Estava agora validando comentários e passei pelo e-mail que me trazia a edição atual do almanaquito. Já estava deletando quando me chamou a atenção – ‘Chris Marker e o cinema soviético…’ Como Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, fez a matéria do ciclo sobre Chris Marker para o ‘Caderno 2’, meio que me desliguei do evento. Mas a Rosário, que não por acaso é mulher do Zanin, me atiçou e resolvi ler. Já disse aqui no blog que devo ter um anjo da guarda que, além de forte, é cinéfilo, pois só isso explica como termino lendo, por acaso, coisas que me interessam muito. Rosário está em transe porque assistiu a sexta a ‘A Felicidade’, de Aleksander Medvedkine. É curioso como ‘A Felicidade’ do diretor russo é, para mim, ‘Le Bonheur’, como o belo filme de Agnès Varda que foi lançado em DVD pela CultClassic (‘As Duas Faces da Felicidade’). Pois foi justamente assim, como ‘Le Bonheur’, que pude vê-lo na França, onde o clássico de Medvedkine foi redescoberto (e restaurado). Desde os anos 70 que eu sabia da existência de Medvedkine e do seu filme de 1934, sempre referido como obra-prima satírica e um raro sopro de vivacidade e humor no cinema soviético sob Stálin. Fui agora ao dicionário de Jean Tulard e seu verbete sobre o dretor, embora entusiasmado, é curto. Ele confirma que os filmes de Medvedkine anteriores a ‘A Felicidade’ se perderam. A trajetória do cineasta se tornou errática depois, mas entre 1958 e 1971 ele fez uma série de oito filmes que chamou de ‘Cinépamphlet’ e que viraram objetos de culto na França, em plena era do cinema militante, pós-Maio de 68, quando Godard se lançou ao projeto coletivo do Grupo Dziga Vertov. Na leitura vertical que fiz no almanaque e que me fez correr ao blog, fiquei sem saber se ‘A Felicidade’ terá nova sessão. Se tiver, não percam – e me informem, porqe gostaria muito de rever o filme antes de escrever mais sobre o diretor. Tenho, sou forçado a admitir, essa relação um tanto complicada com o cinema russo. Reconheço, claro, a importância de Eisenstein e ‘O Encouraçado Potemkin’, mas não rezo na cartilha que vê na cena da escadaria de Odessa os sete minutos mais influentes da história do cinema. Gosto pontualmente de Eisenstein e Pudovkine, ‘Potemkin’ (Potiônkin) e ‘A Mãe’, mas meu fraco no cinema soviético silencioso é ‘Terra’, de Dovjenko. O filme trata da coletivização, e nesse sentido também pode ser considerado uma obra de propaganda da revolução – como ‘Potemkin’ e ‘A Felicidade’ -, mas é muito mais amplo, ‘apenas’ sobre a continuidade do homem, sobre vida e morte, e a natureza. ‘Terra’ saiu em DVD no Brasil. O herói é esse homem que celebra, mais do que tudo, a chegada do trator à fazenda coletiva. Ele inicia uma dança na estrada deserta, à noite, quando é atingido por uma bala (disparada por um dos inimigos da coletivização do campo). Seu enterro rende outra cena de cortar o fôlego – a noiva nua, desesperada pelo que perdeu, o corpo, em esquife aberto, que passa pelos campos de girassóis, característicos da Ucrânia, terra do autor. Também nunca consegui ser tiete de carteirinha de Tarkovski. Gosto de ‘Andrei Roublev’ e, mais do que tudo, do episódio do sino. Nunca consegui entrar em ‘Solaris’ – embora o remake de Soderbergh quase me tena feito rever o filme com outros olhos; coisa mais horrorosa… o Soderbergh). A fábula filosófica de ‘Stalker’ sempre me pareceu incompreensível. Quanto a ‘O Sacrifício’, por melhor que seja, acho que Bergman exagerou – e criou um mito, quem sabe uma falácia – ao dizer que Tarkovski era melhor que ele. Estou aqui divagando sobre o cinema russo. Agora, tenho de sair. Vou ao teatro. Na volta continuo, se perceber que há interesse de vocês.