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Os eternos mistérios de Agatha

Luiz Carlos Merten

03 Março 2018 | 11h57

Sou, vocês sabem, um voraz leitor de Agatha Christie. Hércule Poirot, Miss Marple, Superintendente Battle, Tommy e Tuppence, Parker Pyne, Ariadne Oliver… Conheço todos seus personagens, mas cada vez mais entendo o fascínio da autora por Mr. Quin. A própria Agatha o considerava seu personagem mais complexo e misterioso. Sr. Quin, o invisível, não exatamente humano, mas ainda assim compassivo, atraído pelos assuntos dos humanos, em especial dos amantes. E, com ele, o Sr. Satterthwaite, seu amigo e parceiro no mundo mortal, o eterno observador que termina sempre por intervir e, como deus ex-machina, rearranja o mundo, aproxima os amantes. O Sr. Quin descende do Arlequim, o Arlecchino da commedia dell’arte. Arlequim, Pierrô, Colombina, Pierrete, Polichinelo. Acabo de reler O Misterioso Sr. Quin e cheguei a comentar com Dib Carneiro que um dos contos do pequeno volume era, talvez, o mais belo texto de Agatha Christie. O Homem Que Veio do Mar. Depois de ler e reler, fui pesquisar, o que não é muito do meu feitio, e encontrei, o que não sei se é verdadeiro nesse mundo de fake news – mas gostaria de crer que sim -, a informação de que a própria Agatha tinha um carinho especial por O Homem Que Veio do Mar. Romântica Agatha. Hércule Poirot e suas células cinzentas, Miss Marple e sua intuição e o Sr. Satterthwaite, que, impulsionado pelo Sr. Quin, consegue ver o que os outros não enxergam. Satterthwaite, rico, diletante, velho, recrimina-se por não haver amado, o que talvez, mesmo se fosse só uma lembrança, mitigasse sua solidão. Mas é justamente isso, a própria dor sublimada?, que lhe permite serenar a alma atormentada dos outros. Há algo de fantástico nas narrativas do Sr. Quinn e a própria forma como ele aparece e desaparece sem deixar rastro faz parte do mistério. O Homem Que Veio do Mar é joia delicada como só Agatha sabia lapidar.