Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Os DVDs de Buñuel

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Novembro 2009 | 16h05

Saiu o DVD de ‘Simão do Deserto’ e o Antônio Gonçalves Filho já escreveu sobre o filme, aproveitando para entrevistar o neto de Luís Buñuel, Diego, que está na cidade, realizando um documentário sobre violência urbana. O garoto é bonito – o próprio Buñuel era um tipaço nos seus verdes anos – e diz o Toninho que é inteligente, articulado, mas confesso que o que fez sensação, nas fotos de Diego, foi um certo detalhe anatômico que ressalta quando ele aparece de corpo inteiro. Fechado o parêntese sobre as habilidades (possibilidades?) de Diego Buñuel, quero voltar a Don Luís. Ele fez ‘Simão’ em 1965, logo depois de sua versão de ‘O Diário de Uma Camareira’, com Jeanne Moreau, e antes de ‘Bela da Tarde’, com Catherine Deneuve. O projeto era grandioso – e Buñuel filmava de novo com o produtor mexicano Gustavo Alatriste, marido da estrela Silvia Pinal, de ‘Viridiana’ e ‘O Anjo Exterminador’. A história de Simão o fascinava desde o poeta García Lorca lhe apresentou a ‘Legenda Áurea’, com (sobre) a vida dos santos. Mas faltou dinheiro e Buñuel foi forçado a reduzir sua ambição, o que se refletiu na própria duração de ‘Simão’. O filme mostra o santo que se refugia numa torre para jejuar e meditar. O próprio Diabo, na pele de Silvia Pinal, aparece para tentá-lo e a torre aumenta de altura para que Simão tenha de fazer mais esforço para resistir. Só que, quanto mais alto, mais próximo do sol e o santo começa a ter doenças de pele, a verter pus. Ainda não revi o filme, que me perturbou muito na única vez em que o vi. Essa necessidade que Buñuel teve de adequar o projeto era própria da fase mexicana do mestre surrealista, marcada pela modéstia de recursos (e pelos compromissos comerciais). Confesso que estou acrescentando este post para relatar o que descobri ontem. Estava no Shopping Pompeia, esperando uma sessão da Mostra – da qual tive de desistir para poder ver ‘Philip Morris’ –, quando entrei na Livraria Cultura, para fazer hora. Fui à seção de DVDs, procurei a estante de westerns (e existem algumas preciosidades que quero comentar). Dei uma geral em dramas e descobri que o primeiro filme de Buñuel no México –- ‘Gran Casino’, um musical com Jorge Negrete e Libertad Lamarque, de 1947 – saiu em DVD por aqui, acho que da Cult Classic. ‘Gran Casino’ iniciou a associação de Buñuel com o produtor Oscar Dancigers e foi o sucesso desse filme e do posterior ‘El Gran Calavera’ que permitiu que o produtor arriscasse dinheirio num filme que Don Luís queria muito fazer – e que é um de seus cults, ‘Los Olvidados’. Buñuel teve várias fases, qualquer cinéfilo sabe disso, mas sua obra é coesa, marcada pela repulsa que lhe provocavam família, tradição e propriedade, três pilares da ordem burguesa. O curioso é que Buñuel, tão libertário, como vários gênios, tinha seu lado escuro. Li entrevistas de pessoas que conviveram com ele e são unânimes em dizer que Buñuel era machista, tratando a mulher conmo o faziam os patriarcas que ele expunha no cinema. Pretendo rever “Simão do Deserto’, tão logo passe essa loucura da Mostra. No caso de ‘Gran Casino’, vai ser ‘ver’ – nunca assisti ao filme que poderá ser um programa no mínimo curioso, com a ‘Medreselva’ Libertad Lamarque.